quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Ensino da biologia e da geologia – porquê complicar o que é simples?

As noções fundamentais de biologia e de geologia no ensino básico e no ensino secundário são interessantes e de compreensão (relativamente) fácil por quaisquer alunos.

Porque é que (nas décadas mais recentes) o seu ensino se complicou ou (artificialmente) o complicaram?

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Nos anos setenta e oitenta do século XX, o ensino da biologia e da geologia no ensino não superior padecia das falhas pedagógicas desse tempo, era muito teórico, com uma ou outra experiência magistral demonstrativa, e virado para a memória, mas eram raros os alunos que precisavam de explicações por fora. Essas eram procuradas principalmente para conteúdos de matemática ou de física e química, tidos por mais difíceis, ou de línguas, e restritas a quem podia pagar. As matérias de biologia e de geologia não colhiam a preferência de todos, mas não incluíam partes que merecessem a aversão figadal dos alunos. Tinham ficado para trás, havia anos, as “incompatibilidades” de alguns com os sistemas cristalográficos, entretanto removidos dos programas, tendo-se chegado, aliás, à exclusão da geologia dos currículos bastante depois de instaurada a democracia, regime que foi dilatando a duração da escolaridade obrigatória.

Quando se reintroduziram os exames nacionais nas disciplinas da formação específica do 12º ano, os alunos que precisavam e podiam passaram a procurar ajuda externa. E a biologia de 12º ano tornou-se mais uma das disciplinas com nicho de mercado adicional. Alguns professores da área viram abrir-se-lhes a possibilidade de melhorarem os proventos do seu trabalho e, honestamente, passaram a “dar” explicações. Nada de mais. À parte a desvantagem crónica dos pobres, que nunca comoveu muitos para além dos próprios, as únicas explicações caras terão sido as que não prestavam, ainda que gratuitas. Essa ajuda melhorou a preparação de muitos alunos e aos que a não podiam pagar restava aplicarem-se mais para, pelo menos, obterem aproveitamento.

Com o virar do milénio, o mundo pedagógico encheu-se de soluções para todas as crianças e jovens: “packs” de manuais, redes de centros de explicações, ensino elitista privado só para alunos bons e com capacidade económica, tecnologias digitais, gabinetes de psicologia educacional, apoio à deficiência, etc. Em todas as áreas se passou a fazer trabalho específico, com qualidade ou nem por isso, como era inevitável. Por razões nem sempre nem todas identificadas, o rendimento escolar não melhorou como seria expectável e, pior, não poucos alunos detestam certas disciplinas ou mesmo a escola. Ao mesmo tempo, os professores foram perdendo credibilidade e até o respeito de alunos, de pais e de largos sectores da sociedade, perante a letargia do ministério da educação. Muitos acontecimentos lamentáveis a que se chegou, dentro e fora das salas de aula, como as agressões gratuitas e impunes a professores, são disso testemunho.

A reputação do ensino público foi sofrendo erosão severa. Com o argumento de expor as variáveis negativas e aferir a qualidade das aprendizagens entregou-se a avaliação externa a uma entidade especializada e “independente” responsável pela elaboração de exames nacionais, a qual surgiu e houve por sigla GAVE, mais tarde mudada para IAVE.

Executados em conformidade com os requisitos científico-pedagógicos actualizados, os exames mediriam com rigor o saber dos alunos, identificariam as áreas de falhas, contribuiriam para maior justiça no acesso ao ensino superior e avaliariam a qualidade dos professores.

Devia ter sido assim. Mas não foi. Sabemo-lo. O pior de tudo é o fraco auxílio das provas de exame, instrumentos demasiadamente imperfeitos (refiro-me às provas de biologia e geologia do GAVE/IAVE), na preparação dos alunos e as marcas de aversão a certos conteúdos que deixam neles. Quem duvidar, pergunte-lhes.

O panorama devia ser mudado, o que inclui a melhoria da adequação das provas (pelo menos as de biologia e geologia), mas há interesses que o impedem, descredibilizando o ensino e os próprios exames. O que é pena, porque examinar a aprendizagem - sejam quais forem as modalidades utilizadas - é absolutamente necessário. 

José Batista d’Ascenção


domingo, 10 de janeiro de 2021

O ano lectivo comprometido e o avanço galopante da pandemia

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Este ano lectivo iniciou-se com as aulas a funcionarem em regime presencial, como devia. Os professores corresponderam e os alunos surgiram com uma atitude diferente e melhor, depois de longos meses em casa, não obstante as muitas falhas no que ficou por aprender, com prejuízo sobretudo dos alunos mais pobres. Os exames nacionais do Verão passado foram uma caricatura (19 foi a classificação mais obtida na disciplina de matemática!) e nem sequer serviram para assinalar as matérias menos aprendidas.

As aulas decorridas desde Setembro foram mais ou menos sequenciais e completas em algumas turmas, mas bastante entrecortadas noutras, entre lições presenciais e à distância, para alguns alunos ou mesmo para todos, em períodos genericamente curtos, mas repetidos nalguns casos. Resulta disto prejuízo na progressão sequencial e dispersão de lacunas várias por um número não pequeno de crianças e jovens.

Certo que, globalmente, as coisas até correrem relativamente bem face às expectativas e aos receios que havia. Mas as aulas não decorreram normalmente. E o número declarado de casos de doença não é maior porque muitas pessoas são assintomáticas e a realização de testes de despistagem, pelo menos entre os professores, foi residual (eu tive e terei vários alunos infectados nas aulas que dei e que dou, mas nunca fui solicitado para ser testado…).

Quando, antes da abertura das aulas, ouvi Francisco George afirmar que a “Cruz Vermelha” tinha meio milhão de testes rápidos (com resultados em 15-20 minutos), pensei que viessem a ser usados também nas escolas, para melhor gestão e tomadas de decisão, mas nunca mais ouvi falar de tal coisa. Não sei como terão sido utilizados ou se o foram.

Entretanto, as escolas foram funcionando com o esforço e a boa vontade de professores e funcionários. Mas os problemas estruturais mantêm-se e nem sequer a burocracia sofreu alguma redução. Não há quaisquer vestígios de que tenha melhorado em nada a qualidade do ensino praticado este ano, as dificuldades é que cresceram, pelo que mais se justificava incidir no cerne dos problemas. Já o formalismo dos exames mantém-se, como se estivéssemos num ano normal e o fundamental fosse “envernizar” o tradicional “funil de ingresso” no ensino superior. Os questionários de exames serão artificiosamente compostos e classificados, passando por cima da incongruência desses instrumentos com o trabalho lectivo real e ignorando a desarmonia e incoerência com as provas e classificações do ano passado e anteriores (umas e outras também díspares entre si de uns anos para os outros). As prioridades deviam ser outras: quanto a mim, ensinar o melhor possível. As universidades estão muito a tempo de fazerem a selecção dos alunos pelo que eles sabem e não segundo ordenações classificativas pouco rigorosas e desigualmente inflacionadas. Tecnologia não falta. O sistema existente, ao amestrar alunos para os truques dos questionários do IAVE, fomenta alguns negócios: desde “indústrias editoriais” e grandes redes de centros de explicações a diversos equipamentos e software informáticos, uns úteis e outros inúteis; e estimula a competição feroz pelas “notas”, que não propriamente pelo saber. Tudo isto falha na preparação humanística e científica dos alunos, na sua formação cívica e até na promoção da sua sanidade física e mental.

Nesta altura, e após a quadra do Natal, em que os (cidadãos) portugueses não procederam adequadamente, na sequência (ou em consequência) da fraca assertividade dos políticos nas recomendações prévias (face à informação e aos pareceres médicos e científicos de que dispunham), os números de contaminações dispararam e os hospitais estão à beira da ruptura. Tornou-se necessário novo confinamento.

Como deixar de fora alunos e professores, muitos destes já em idade de risco?

Não vale a pena iludirmo-nos. 

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Os meus desejos profissionais para 2021 e daí em diante

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No sistema de ensino, a que pertenço desde 1984, quase nada nunca mudou para melhor. Até as tecnologias digitais, que deviam facilitar as tarefas de todos e resolver muitos problemas, se tornaram motivo para mais burocracias, complicações e dependências. Não que as ferramentas, em si, não sejam excelentes e cada vez melhores. O uso que fazemos delas é que não tem sido nem é o mais eficaz.

Suponho que a “máquina” do ministério da educação, intrinsecamente perra, os órgãos conexos e os institutos relacionados funcionam mais para se manterem (e darem ocupação a quem lá tem os seus lugares) do que para aprendermos com os erros, incidirmos no que precisa correcção, eliminarmos vícios, colmatarmos falhas e atacarmos os problemas de solução possível.

Muito para além de suplantarmos a actual pandemia, eu gostaria que:

- a formação inicial dos candidatos a docentes fosse exigente em matéria científica e não inculcasse “princípios” e procedimentos pedagógicos que a ciência não comprova;

- a selecção de professores fosse criteriosa e só pudessem entrar na docência pessoas de alta valia ética e profissional;

- a avaliação dos docentes englobasse as suas condições de saúde, especialmente a saúde psicológica, e não fosse uma caricatura sem coerência nem rigor nem dignidade, como se verifica actualmente;

- os programas (de algumas disciplinas, por exemplo a parte de biologia da disciplina de biologia e geologia de 10º ano) fossem revistos, por ou sob supervisão de especialistas das áreas científicas de craveira internacional;

- os exames fossem elaborados em respeito e na observância do estipulado nos programas, que tivessem coerência entre si, em anos sucessivos, e que não fossem concebidos para que os alunos obtenham (ou não) determinadas classificações;

- que se estude a discrepância manifesta entre as classificações internas das escolas nas disciplinas em que há exames nacionais (por exemplo de biologia e geologia de 11º ano) e as classificações internas das disciplinas (das mesmas escolas) em que não há provas nacionais (por exemplo de biologia de 12º ano; análise extensível a outras disciplinas optativas no 12º, como psicologia, física ou química) e se assuma o que se está a passar: nisto, não há inspecção nem algum “IAVE” que dê por nada?;

- que eu ensinasse para preparar alunos em vez de ser um funcionário ao serviço do “funil” de ingresso no ensino superior, treinando jovens para saltarem a barreira dos questionários, tantas vezes obtusos, do IAVE;

- que se passe a respeitar o que determina o estatuto da carreira docente relativamente às horas de redução da componente lectiva dos professores com mais anos de serviço (artigo 79º), por só pode ser ilegal  (e humilhante) obrigar estes professores a substituírem outros nas suas faltas, já que tal função não é mais que serviço lectivo;

- e que os professores sejam libertos de funções burocráticas, porquanto, se são professores, o seu papel deve ser ensinar os alunos.

São muitos desejos, que deviam ser fáceis de alcançar. Mas no nosso "sistema educativo” nunca nada foi fácil, sobretudo quando o devia e podia ser.

Bom Ano, especialmente no que depende de nós. 

José Batista d’Ascenção

domingo, 20 de dezembro de 2020

Ensinamentos da pandemia no cumprimento dos horários escolares

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Década após década, algo que nunca me foi particularmente agradável era a estridência de uma campainha a chamar para o início de cada aula ou a anunciar o seu fim. No meu inconsciente, nunca venci a preocupação prévia com cada lição, a qual, felizmente, sempre se desvaneceu momentos depois de a começar. Somado a esse factor havia sempre o desconforto de um tilintar a fazer-me sentir um desamparado “cão de Pavlov”, eu que, regra geral, sofro de incapacidade de chegar atrasado, característica que pode não ser do agrado de muito boa gente.

A este respeito, o meu amigo Zé Precioso, no início da década de noventa do fim do milénio anterior, costumava dividir as pessoas em três categorias: os “hiperpontuais” (em que me situava a mim e ao nosso colega Luís Dourado, no curso que então frequentávamos), os “isopontuais” (como se definia a si próprio) e os “hipopontuais” (condição que aplicava a boa parte dos restantes colegas do mesmo curso).

Ora, por causa do conveniente desencontro das diferentes turmas no espaço escolar, optou-se na minha escola, e bem, por estipular criteriosamente os vários horários e calar a campainha, a fim de evitar a perturbação e a confusão que poderiam resultar da frequência dos toques.

Para alívio e surpresa da minha parte, desde logo me pareceu que, quer os professores, quer os alunos, quer os funcionários, cumpriam muito bem os respectivos horários sem necessidade da chocalheira habitual.

Foi um agradável ensinamento: os portugueses são muito capazes de respeitar os relógios. E eu, com a minha fraca audição, vi desaparecer um aspecto do meu trabalho que nunca me agradou. E que gostava que não fosse recuperado, quando as vacinas (já faltam poucos meses!) nos libertarem dos receios e dos constrangimentos actuais.

Até lá.

Por agora, e antes disso: Um Natal com saúde.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O desalento de muitos professores

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A minha amiga de longa data, São B., é professora há tantos anos como eu e trabalha na capital do Baixo Alentejo. Este ano calharam-lhe alunos de três níveis, incluindo duas turmas do ensino básico. Como não desiste de ser rigorosa e se aplica com todas as suas forças, está pelos cabelos. A fazer sessenta anos, lutadora tenaz contra os azares da vida, incluindo um cancro muito agressivo, que venceu, vê com muita tristeza e desalento a deseducação e desinteresse das criancinhas, que não se comportam como crianças na sua “recusa de aprender” e fazem o possível para se tornarem insuportáveis, no que contam com a sua oposição firme e determinada, que ela não é mulher de morrer de medo, nem lá perto.

Na troca de «mails» que tivemos por estes dias deu-me nota da sua saturação. Não fosse a penalização da reforma antecipada ser tão grande, diz-me ela que já «mandava tudo às urtigas». Reconheci que os tempos são cada vez mais difíceis e adiantei que a formação pedagógica que proporcionaram aos professores não os preparou para, nem previu, minimamente, as dificuldades reais que encontraram. Contrapôs ela que «não fomos ensinados para lidar com tal gente e ainda bem que não fomos”, porque não crê que «fosse algo com que que devamos aprender a lidar». Sentindo a sua dor, optei por não a contrariar. Que adiantaria dizer-lhe que era ilusória a «ciência pedagógica» mais ou menos fundada em virtudes angelicais do género humano, aplicada a tenras crianças, que havia de traduzir-se em lamentável estímulo à sua deseducação, multiplicada e propagada contagiosamente de umas para outras, para mais numa sociedade (educativa) mutável, cuja evolução ninguém foi capaz de prever?

A sociedade abandonou os seus professores. As universidades que os diplomaram não têm orgulho nem confiança neles. O ministério da educação trata-os como incapazes. As direcções das escolas representam o ministério: veja-se que, em tempos relativamente recentes, quando muitos pais foram à escola bater em professores, que não podiam defender-se, a primeira coisa que acontecia a esses professores era instaurarem-lhes um processo; por outro lado, quantos dos agressores foram responder a tribunal?

Os professores estão envelhecidos, muitos deles doentes e sós. E têm consciência aguda desse facto.

Num quadro assim, quais poderiam ser as expectativas dos alunos em relação à escola e aos professores?

Por tais razões, «cansada, farta e frustrada», a minha amiga não tem «dúvidas de que estamos a reproduzir os desprovidos de neurónios» (…), pelo que «não prevê bom futuro para a espécie humana».

Referi o caso da minha amiga apenas como exemplo concreto. Suponho que poderia multiplicá-lo pela maioria do corpo docente. Desde os que tentam animar-se aos que mete(ra)m atestado médico “preventivo” e aos que vão para a escola tão acabrunhados que mal o confessam.

A realidade é a que é.

Porque não queremos vê-la?

José Batista d’Ascenção

sábado, 5 de dezembro de 2020

Alunos de muitas proveniências - como ensiná-los bem, a todos?

Fonte da imagem: aqui.

Por múltiplas razões, a mobilidade dos cidadãos acentuou-se nas últimas duas-três décadas. Portugal, país de emigrantes, tornou-se, também ele, como a Europa, de que faz parte, destino de muitos estrangeiros, individualmente ou por junto, incluindo grupos familiares. Chega(ra)m dos países de leste, após a fragmentação da URSS, com o colapso do regime político daquela união e dos seus satélites, da China, de imensas regiões do norte de África, do Brasil e da Venezuela (neste caso trata-se de portugueses ali emigrados e/ou dos seus descendentes).

As crianças nascidas destes “viajantes” são em número significativo nas nossas escolas. Este contributo para a renovação da juventude portuguesa não pode deixar de influenciar positivamente (espera-se) o futuro de Portugal, face aos baixos valores da natalidade no país.

Sou dos que vêem com bons olhos este aporte populacional, que espero que se traduza em enriquecimento cultural e económico dos portugueses.

Por outro lado, penso que, se os meus netos, como outras criancinhas filhas de jovens portugueses emigrados por esse mundo fora (fugidos à pobreza do país) regressarem, maiores e melhores serão as perspectivas do tempo que há-de vir, neste cantinho, berço antigo e duradoiro do que fomos e seremos.

Para isso é preciso que a escola trabalhe melhor, o que está perfeitamente ao nosso alcance. Estas crianças e jovens que “vêm de longe” (mesmo se nascidas cá) parece-me terem uma atitude diferente e mais favorável relativamente ao cumprimento dos seus deveres do que aqueles que são ancestralmente portugueses, mais propensos à batota (que chega ao cúmulo de ser exigida como “direito”), à desculpa esfarrapada, à fraqueza da inveja, ao alijar de responsabilidades, etc. Claro que nem todos somos assim (nem os estrangeiros são melhores do que nós), mas estes traços caracterizam-nos, desde as primeiras gerações. E o resultado é o que somos e o que temos intramuros. Se vamos lá para fora, não nos aparam o jogo e, por isso, o desempenho melhora. Aquela ideia de que só fogem do país os mais capacitados – os melhores de nós – carece de demonstração.

No que me toca, sinto-me privilegiado por poder trabalhar com jovens de muitas proveniências. E acarinho-os e encorajo-os tanto quanto posso, porque acredito neles. De algum modo para compensar o falhanço de cidadania e desenvolvimento que atribuo à geração de que faço parte.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Novas exigências do ensino, em mais um ano lectivo (já) bastante prejudicado

Fonte da imagem: aqui.

Aproxima-se o fim do primeiro período, que teve início em meados de Outubro. O aumento do número de casos de «covid 19» fez com que alunos isolados ou grupos de alunos ou turmas inteiras ficassem em casa, em isolamento, vários dias, numas alturas uns, noutras alturas outros, e às vezes todos. As escolas não estavam (bem) equipadas (nem estão) para se fazer bom ensino à distância, o mesmo acontecendo na casa de muitos alunos, pelo que se foi fazendo o possível, entre sessões «on-line» e aulas presenciais ou usando câmaras nas salas de aula fazendo, ao mesmo tempo, ensino presencial e à distância (neste caso com sérias limitações quando, para além do projector, se tinha de fazer uso do quadro de escrever à mão).

Como o fim da pandemia não vai ser resolvido nos meses imediatos, e estas perturbações vão continuar (não obstante o treino forçado nas improvisações, que resolve algumas delas), já não há dúvidas (no meu espírito) de que este é mais um ano lectivo comprometido.

A estas dificuldades somam-se outras, algumas delas cada vez mais comuns no nosso país. Aquando do início das aulas, achei curiosa a variedade de nomes ou apelidos com que não estava familiarizado, de alunos inscritos nas minhas turmas, tais como: Yago, Kubijan, Nicholas, Maggio, Alejandro, Cuberos, Sadowski, Ioannis, Nikolaos, Kokkinovrachos, Monferrari, Kailany, Aiko, Horaguti, Utsunomya, Matheus, Alyssa, Tiffany, Porelli, Worsnup. E se alguns deles têm conhecimentos de base, capacidade e organização para fazerem um bom trabalho, outros, ainda que com vontade, estão em situação de inferioridade. Na realidade, há entre estes meninos quem nem sequer consiga ler minimamente bem.

Para além disto, surpreende-me a prática, que a lei permite, de os alunos da mesma escola pedirem com toda a facilidade para mudar de turma, a todo o momento. No fim de Novembro, dois meses e meio de aulas decorridos, recebi mais dois. Segundo alguém me disse não estariam satisfeitos com as classificações dos primeiros testes entretanto realizados nalgumas das disciplinas que frequentavam. E vá de trocar de turma, iniciando outras disciplinas a que não sabem se vão conseguir melhores resultados, tanto mais que já perderam cerca de um terço das aulas possíveis este ano. Não sei se isto corresponde a algum entendimento do que seja a flexibilidade curricular, mas não era mau que os alertassem para os efeitos indesejáveis que possa haver, até nas boas classificações que muitos alunos perseguem, com toda a legitimidade, aliás, desde que de modo sério e responsável.

Problema maior ainda é o que se está a passar com o ensino dos meninos do ensino básico, particularmente aqueles que têm menor rendimento escolar (a maior parte deles provenientes de famílias pobres). Creio que por causa das estatísticas “positivas” que é preciso fornecer à OCDE, há uma enorme pressão sobre os professores, no sentido de que todos os alunos devem passar, o que em si não é mau, mas que leva a que os docentes atribuam generalizadamente “níveis positivos” (e tendencialmente altos), como se o rendimento fosse efectivo. O problema é que não é, e todos sabemos disso. Creio igualmente que esta situação se relaciona com uma forte oposição à realização de exames, porquanto todos sabem também que aqueles meninos estão (frequentemente) muito (senão completamente) impreparados. Ora, não temos o direito de nos iludirmos nem de enganar os alunos. Devia afirmá-lo o governo, os professores deviam exigi-lo como princípio e os institutos pedagógicos e os que têm o título de especialistas de educação não deviam olhar para o lado nesta matéria.

Já os encarregados de educação, esses talvez continuem a não exigir nada, porque, mais focados nas classificações dos seus educandos, parecem alheios à gravidade do problema.

Em consequência, perde o país e perdemos todos.


José Batista d’Ascenção