segunda-feira, 22 de junho de 2026

A visão da Escola com que me identifico, desde sempre

(…) «Está certa a ideia de que uma criança não aprende sozinha nem com os pares que saibam o mesmo, isto é, o professor tem um papel imprescindível na aprendizagem.

(…) A ideia de que as crianças descobrem o seu próprio saber é muito ingénua. Podem e devem ser postas a questionar, a fazer conjecturas, mas certamente vão chegar, como a Humanidade chegou no passado, a conclusões erradas. (…) Não descobrem, de repente, aquilo que à Humanidade demorou séculos a descobrir. Por isso é que o ensino é indispensável. (…) A escola serve para transmitir às gerações actuais o melhor que as gerações anteriores nos legaram, incluindo nessa herança o corpo de conhecimentos sobre o mundo e o método para o adquirir, que se chama ciência. (…) É um erro abandonar o «ensino directo» em favor do «ensino centrado na criança». (…) Em ciência há conceitos científicos, destilados por todo um desenvolvimento cumulativo da ciência, e não há lugar a conceitos alternativos.

(…) Seria bom que, em vez de contínuas «experimentações pedagógicas» baseadas em visões construtivistas deturpadas, fossem valorizadas (…) formas de ensino empiricamente testadas e que é preciso seleccionar. (…) Não se quer com isto dizer que a curiosidade e vontade de mexer dos alunos devam ser reprimidas em favor de uma visão passiva. Antes pelo contrário.

(…) É curioso que (…) o computador pessoal, [que] apareceu no início dos anos de 1980, tenha alimentado a ideia mirífica do «ensino centrado no aluno». (…) A prática veio a mostrar (…) que os professores não são dispensáveis. (…)

(…) A escola foi inventada no tempo dos antigos Gregos como uma relação entre mestre e discípulos, tendo como horizonte o conhecimento, e (…), a escola continua a ser, na sua essência, essa relação. (…)

(…) Em Portugal os professores estão de tal modo habituados a ter de seguir determinações do aparelho estatal que nem têm tempo para pensar e planear o seu trabalho de acordo com o conhecimento científico. (…) As vítimas (…) são (…) os alunos, principalmente aqueles vindos de meios mais desfavorecidos que, sem escola, não têm possibilidade de acesso ao melhor que a Humanidade tem para lhes dar (…)

(…) Muitos «teóricos» da educação, que a cada oportunidade política manipulam [os] programas [curriculares] (…), não sabem bem o que é a ciência, quando a apresentam (…) como uma mera construção social. (…)

(…) Às escolas e aos professores devia ser dada liberdade pedagógica, em vez de serem impostas (…) coisas difusas [como as] chamadas «competências». [E bem assim, princípios, objectivos e métodos, que] vêm embrulhados em prosa obscura, como é exemplo o (…) Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória. (…) O valor maior devia ser o do conhecimento, e não os valores (…) da utilidade e da rentabilidade (…). Não há que ter medo dos testes, pois as medidas que eles fornecem, ainda que imperfeitas, acabam por ser melhores do que nenhuma medida.»(…)

David Marçal, in: «A Ciência E Os Seus Inimigos». Carlos Fiolhais e David Marçal. Gradiva. 5ª ed. 2022. 222-227 p.

José Batista d’Ascenção

Ondas de calor e exames nacionais

Este ano lectivo, a logística e os procedimentos associados aos exames nacionais comportam alterações que ainda não sabemos se são globalmente vantajosos ou se trazem inconvenientes que é preciso evitar ou resolver.

Um pequeno aspecto que podia ser melhorado, sem nenhuma dificuldade ou desvantagem, é o horário de início de realização das provas da parte da manhã. Em vez de ser às 09.30 horas devia ser às 09.00 horas. Porquê?

Se ocorrerem ondas de calor, como se prevê para esta semana, e os termómetros se aproximarem do 40 ºC ou os ultrapassarem, o ambiente em salas de exame com as vidraças viradas a Sul pode tornar-se muito desconfortável. Começando meia hora mais cedo, o efeito tórrido podia ser um pouco atenuado.

As vantagens não seriam despiciendas.

José Batista d'Ascenção

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Conselhos para os meus alunos que vão a exame pela primeira vez

Queridos alunos:

A próxima quinta-feira, dia do exame de biologia e geologia, é mais um dia das vossas vidas. É importante? É. Mas não será mais importante do que outros dias que já viveram e muitos outros que hão-de viver.

Parece-me que lhes será útil:

- não pretender rever tudo na véspera;

- tentar dormir bem a noite anterior;

- chegar com tempo no dia do exame, levar o documento de identificação e relógio permitido;

- manter a calma: não ficar aflito qualquer que seja a impressão que a prova cause – especialmente a primeira impressão;

- aproveitar o tempo do exame até ao fim.

Depois dos exames, com excepção da análise dos resultados, procurar esquecer os exames e a escola, até Setembro.

Bom trabalho.

José Batista d'Ascenção

domingo, 14 de junho de 2026

Agora que as “notas” (internas) saíram

Já posso fazer uma confissão: a avalanche de notas altíssimas, não poucas delas de vinte!, causam-me decepção e tristeza. Confesso-o porque não consigo contrariar a onda nem fugir ao turbilhão. Penso que não é bom para os alunos e é mau para a escola e para os professores e para a sociedade. Um vinte dá-se (ou devia dar-se) esporadicamente a alunos extraordinários (extra-ordinários, quero significar) quando eles aparecem (porque os há), não sei com que “periodicidade” (de vinte em vinte anos?), mas não assim, a encher pautas até meter fastio.

A culpa não é dos alunos, nem daqueles que se “autoavaliam” (a autoavaliação é um mito com consequências, de que também não são responsáveis) como se fossem perfeitos e sábios, que eles talvez não saibam que não são.

Isto que afirmo não é diminuir os bons alunos, nem os melhores deles.

E também não é culpar os pais, mesmo aqueles que exercem pressões e ameaças que deviam ser inadmissíveis e frontalmente rechaçadas.

Como (quase) ninguém parece querer ver nada (alguns falaram, mas depois ficaram mudos…), no que eu não alinho, registo, para que conste, que há várias medidas que podem ser tomadas, nenhuma delas perfeita, e entre elas uma que é a minha preferida: Aos professores do ensino secundário devia caber a preparação dos alunos para que eles ficassem a saber. A cada universidade devia caber a responsabilidade e o trabalho de seleccionar os que estivessem preparados para nela ingressar. Desse modo, os alunos e os seus pais passavam a preocupar-se com o que é preciso aprender e saber e não com um número conveniente, justo ou injusto, real ou fictício, afixado numa parede.

Entretanto, por mor dos meus pecados, e com grande desconforto, lá ditei para a acta: «Da análise das opiniões manifestadas pelos alunos, sobretudo pelos que têm melhores classificações, na aula destinada à avaliação do trabalho realizado ao longo do ano, verifica-se que esses alunos tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»

Com o maior respeito pelos meus alunos.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 2 de junho de 2026

Vi chorar e chorei

Fugi depressa. A tempo. Era a última aula com a turma H do 12º ano. Para o sumário ditei: "Opiniões dos alunos sobre o trabalho realizado ao logo do ano e sobre avaliação". E foi agradável ir ouvindo os alunos. Nenhum falou de avaliação. Ao contrário do que idealizara fui comentando. Estes miúdos são, sempre foram, meigos, humildes e doces. Só os tive este ano e fiquei encantado com eles ao longo do primeiro período. Depois, a partir do fim de Janeiro, ficaram mais lassos. Desde aí comecei a pôr na equação onde é que, da minha parte, a capacidade de estimular me ficara embotada…

A maneira como hoje se pronunciaram fez-me reparar na bondade daquelas almas e no carinho que aqueles jovens transportam. Quando a M. Lopes tomou a palavra embargou-se-lhe a voz… Eu quis dizer algo que devolvesse alegria e risos, mas não fui fluente.

Os restantes foram algo lacónicos e resumidos, porque, disseram, concordavam com tudo.

Então libertei-os, como quem os abraçasse sentidamente, e disse-lhes: “até sempre”.

Dali até ao carro foi uma fugida. Ninguém me pôde olhar nos olhos.

O tempo da aula terminou agora.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 26 de maio de 2026

Amparar os cachopos

Discretamente: incutir-lhes confiança, serenidade, racionalidade, organização, alguma frieza.

Há-os mal preparados, há. Mas nem esses é bom derrotar. Sem os iludir, não se pode desaproveitar os mínimos dos mínimos que possam conseguir. Estão no caminho, é importante que caminhem.

Outros estão dentro do que é aceitável. Trabalham. Cumprem. São comuns, o que é uma riqueza. Tendencialmente são os mais numerosos. Mondando os factores daninhos, são campo fecundo. Se semearmos e cuidarmos bem, devemos acreditar que teremos boas frutificações e colheitas.

Os acima da média são, só por isso, muito valiosos. Pelo que podem conseguir. Pelo exemplo que podem dar. Pelo retorno que, expectavelmente, trarão à comunidade.

Estas “categorias” não são estanques nem de fronteiras rígidas. Professores diferentes, com os mesmos alunos fariam grupos (deste tipo) não propriamente coincidentes. O que relativiza os rótulos e é um bem, de todo o modo.

Aproxima-se o «cair do pano» de mais um ano lectivo. Não passa de um momento do ciclo escolar que se repete anualmente, para os professores. Para os alunos é diferente.

Vamos ver como se saem nas provas finais. Haja merecimento e justa compensação.

Nada de novo debaixo do Sol.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O ritmo, a idade e algum cansaço

Estreita-se o tempo para o fim do ano lectivo. É muito o que idealmente se desejaria fazer com os alunos e menor a disponibilidade de energia para o conseguir. Da parte dos alunos também há saturação e cansaço. E não pouca ansiedade nos que têm de apresentar-se a exames nacionais. Os pais/encarregados de educação que acompanham os seus educandos não escapam igualmente aos efeitos da “época”, facto que, em casos mais sensíveis, atrapalha os estudantes aplicados.

Serenidade e alguma frieza, capacidade de programação e racionalidade são, por esta altura e nos tempos próximos, especialmente desejáveis.

Os alunos trabalhadores e acompanhados são tão capazes como sempre foram, e os exames são, para os que pensam como eu, requisitos necessários, para diversos efeitos, por motivos vários, desde logo equidade e responsabilização.

Porfiemos. O esforço dará frutos. Evitemos pressões desestabilizadoras e estudo pela goela abaixo em cima da hora. Em algumas escolas o excesso de zelo traduz-se no abuso de fazer horários para dar aulas para além da data legal do seu término, na semana e pouco até aos exames, como se fosse possível dar nesse curto intervalo de tempo o que não se deu em centenas de aulas de disciplinas bienais ou trienais. Apoio aos alunos é outra coisa, e deve revestir formas mais sérias e eficazes.

Infelizmente, há muitos alunos que não estão bem preparados. Mas aí os exames também deviam cumprir uma função útil, por reveladores de responsabilidades que temos dificuldade em assumir, nós: ministério da pasta, departamentos universitários de educação e psicologia, escolas, professores, alunos, pais...

José Batista d’Ascenção