(…) «Está certa a ideia de que uma criança não aprende sozinha nem com os pares que saibam o mesmo, isto é, o professor tem um papel imprescindível na aprendizagem.
(…) A ideia de que as crianças descobrem o seu próprio saber é muito ingénua. Podem e devem ser postas a questionar, a fazer conjecturas, mas certamente vão chegar, como a Humanidade chegou no passado, a conclusões erradas. (…) Não descobrem, de repente, aquilo que à Humanidade demorou séculos a descobrir. Por isso é que o ensino é indispensável. (…) A escola serve para transmitir às gerações actuais o melhor que as gerações anteriores nos legaram, incluindo nessa herança o corpo de conhecimentos sobre o mundo e o método para o adquirir, que se chama ciência. (…) É um erro abandonar o «ensino directo» em favor do «ensino centrado na criança». (…) Em ciência há conceitos científicos, destilados por todo um desenvolvimento cumulativo da ciência, e não há lugar a conceitos alternativos.
(…) Seria bom que, em vez de contínuas «experimentações pedagógicas» baseadas em visões construtivistas deturpadas, fossem valorizadas (…) formas de ensino empiricamente testadas e que é preciso seleccionar. (…) Não se quer com isto dizer que a curiosidade e vontade de mexer dos alunos devam ser reprimidas em favor de uma visão passiva. Antes pelo contrário.
(…) É curioso que (…) o computador pessoal, [que] apareceu no início dos anos de 1980, tenha alimentado a ideia mirífica do «ensino centrado no aluno». (…) A prática veio a mostrar (…) que os professores não são dispensáveis. (…)
(…) A escola foi inventada no tempo dos antigos Gregos como uma relação entre mestre e discípulos, tendo como horizonte o conhecimento, e (…), a escola continua a ser, na sua essência, essa relação. (…)
(…) Em Portugal os professores estão de tal modo habituados a ter de seguir determinações do aparelho estatal que nem têm tempo para pensar e planear o seu trabalho de acordo com o conhecimento científico. (…) As vítimas (…) são (…) os alunos, principalmente aqueles vindos de meios mais desfavorecidos que, sem escola, não têm possibilidade de acesso ao melhor que a Humanidade tem para lhes dar (…)
(…) Muitos «teóricos» da educação, que a cada oportunidade política manipulam [os] programas [curriculares] (…), não sabem bem o que é a ciência, quando a apresentam (…) como uma mera construção social. (…)
(…) Às escolas e aos professores devia ser dada liberdade pedagógica, em vez de serem impostas (…) coisas difusas [como as] chamadas «competências». [E bem assim, princípios, objectivos e métodos, que] vêm embrulhados em prosa obscura, como é exemplo o (…) Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória. (…) O valor maior devia ser o do conhecimento, e não os valores (…) da utilidade e da rentabilidade (…). Não há que ter medo dos testes, pois as medidas que eles fornecem, ainda que imperfeitas, acabam por ser melhores do que nenhuma medida.»(…)
David Marçal, in: «A Ciência E Os Seus Inimigos». Carlos Fiolhais e David Marçal. Gradiva. 5ª ed. 2022. 222-227 p.
José Batista d’Ascenção






