domingo, 14 de junho de 2026

Agora que as “notas” (internas) saíram

Já posso fazer uma confissão: a avalanche de notas altíssimas, não poucas delas de vinte!, causam-me decepção e tristeza. Confesso-o porque não consigo contrariar a onda nem fugir ao turbilhão. Penso que não é bom para os alunos e é mau para a escola e para os professores e para a sociedade. Um vinte dá-se (ou devia dar-se) esporadicamente a alunos extraordinários (extra-ordinários, quero significar) quando eles aparecem (porque os há), não sei com que “periodicidade” (de vinte em vinte anos?), mas não assim, a encher pautas até meter fastio.

A culpa não é dos alunos, nem daqueles que se “autoavaliam” (a autoavaliação é um mito com consequências, de que também não são responsáveis) como se fossem perfeitos e sábios, que eles talvez não saibam que não são.

Isto que afirmo não é diminuir os bons alunos, nem os melhores deles.

E também não é culpar os pais, mesmo aqueles que exercem pressões e ameaças que deviam ser inadmissíveis e frontalmente rechaçadas.

Como (quase) ninguém parece querer ver nada (alguns falaram, mas depois ficaram mudos…), no que eu não alinho, registo, para que conste, que há várias medidas que podem ser tomadas, nenhuma delas perfeita, e entre elas uma que é a minha preferida: Aos professores do ensino secundário devia caber a preparação dos alunos para que eles ficassem a saber. A cada universidade devia caber a responsabilidade e o trabalho de seleccionar os que estivessem preparados para nela ingressar. Desse modo, os alunos e os seus pais passavam a preocupar-se com o que é preciso aprender e saber e não com um número conveniente, justo ou injusto, real ou fictício, afixado numa parede.

Entretanto, por mor dos meus pecados, e com grande desconforto, lá ditei para a acta: «Da análise das opiniões manifestadas pelos alunos, sobretudo pelos que têm melhores classificações, na aula destinada à avaliação do trabalho realizado ao longo do ano, verifica-se que esses alunos tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»

Com o maior respeito pelos meus alunos.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 2 de junho de 2026

Vi chorar e chorei

Fugi depressa. A tempo. Era a última aula com a turma H do 12º ano. Para o sumário ditei: "Opiniões dos alunos sobre o trabalho realizado ao logo do ano e sobre avaliação". E foi agradável ir ouvindo os alunos. Nenhum falou de avaliação. Ao contrário do que idealizara fui comentando. Estes miúdos são, sempre foram, meigos, humildes e doces. Só os tive este ano e fiquei encantado com eles ao longo do primeiro período. Depois, a partir do fim de Janeiro, ficaram mais lassos. Desde aí comecei a pôr na equação onde é que, da minha parte, a capacidade de estimular me ficara embotada…

A maneira como hoje se pronunciaram fez-me reparar na bondade daquelas almas e no carinho que aqueles jovens transportam. Quando a M. Lopes tomou a palavra embargou-se-lhe a voz… Eu quis dizer algo que devolvesse alegria e risos, mas não fui fluente.

Os restantes foram algo lacónicos e resumidos, porque, disseram, concordavam com tudo.

Então libertei-os, como quem os abraçasse sentidamente, e disse-lhes: “até sempre”.

Dali até ao carro foi uma fugida. Ninguém me pôde olhar nos olhos.

O tempo da aula terminou agora.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 26 de maio de 2026

Amparar os cachopos

Discretamente: incutir-lhes confiança, serenidade, racionalidade, organização, alguma frieza.

Há-os mal preparados, há. Mas nem esses é bom derrotar. Sem os iludir, não se pode desaproveitar os mínimos dos mínimos que possam conseguir. Estão no caminho, é importante que caminhem.

Outros estão dentro do que é aceitável. Trabalham. Cumprem. São comuns, o que é uma riqueza. Tendencialmente são os mais numerosos. Mondando os factores daninhos, são campo fecundo. Se semearmos e cuidarmos bem, devemos acreditar que teremos boas frutificações e colheitas.

Os acima da média são, só por isso, muito valiosos. Pelo que podem conseguir. Pelo exemplo que podem dar. Pelo retorno que, expectavelmente, trarão à comunidade.

Estas “categorias” não são estanques nem de fronteiras rígidas. Professores diferentes, com os mesmos alunos fariam grupos (deste tipo) não propriamente coincidentes. O que relativiza os rótulos e é um bem, de todo o modo.

Aproxima-se o «cair do pano» de mais um ano lectivo. Não passa de um momento do ciclo escolar que se repete anualmente, para os professores. Para os alunos é diferente.

Vamos ver como se saem nas provas finais. Haja merecimento e justa compensação.

Nada de novo debaixo do Sol.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O ritmo, a idade e algum cansaço

Estreita-se o tempo para o fim do ano lectivo. É muito o que idealmente se desejaria fazer com os alunos e menor a disponibilidade de energia para o conseguir. Da parte dos alunos também há saturação e cansaço. E não pouca ansiedade nos que têm de apresentar-se a exames nacionais. Os pais/encarregados de educação que acompanham os seus educandos não escapam igualmente aos efeitos da “época”, facto que, em casos mais sensíveis, atrapalha os estudantes aplicados.

Serenidade e alguma frieza, capacidade de programação e racionalidade são, por esta altura e nos tempos próximos, especialmente desejáveis.

Os alunos trabalhadores e acompanhados são tão capazes como sempre foram, e os exames são, para os que pensam como eu, requisitos necessários, para diversos efeitos, por motivos vários, desde logo equidade e responsabilização.

Porfiemos. O esforço dará frutos. Evitemos pressões desestabilizadoras e estudo pela goela abaixo em cima da hora. Em algumas escolas o excesso de zelo traduz-se no abuso de fazer horários para dar aulas para além da data legal do seu término, na semana e pouco até aos exames, como se fosse possível dar nesse curto intervalo de tempo o que não se deu em centenas de aulas de disciplinas bienais ou trienais. Apoio aos alunos é outra coisa, e deve revestir formas mais sérias e eficazes.

Infelizmente, há muitos alunos que não estão bem preparados. Mas aí os exames também deviam cumprir uma função útil, por reveladores de responsabilidades que temos dificuldade em assumir, nós: ministério da pasta, departamentos universitários de educação e psicologia, escolas, professores, alunos, pais...

José Batista d’Ascenção

domingo, 26 de abril de 2026

A qualidade dos professores portugueses (*)

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico tende a ter em boa conta a “Educação” em Portugal. De um grupo de oito países avaliados recentemente por aquela organização, os professores portugueses são os que têm um “nível de conhecimentos pedagógicos" mais alto. Há não muitos anos, um seu funcionário apelidou mesmo o nosso “sistema educativo” de um “Rolls Royce”. Há departamentos ou institutos de educação em universidades portuguesas que também estão satisfeitos com o seu trabalho.

Devíamos ficar muito contentes, assim como devíamos sentir na vida diária, no desempenho académico, laboral e social dos portugueses, assim como na prática da cidadania, alguns indicadores que nos proporcionassem mais satisfação e sentido de realização. O optimismo, contudo, se existe, em termos gerais, não se dá por ele.

Nem dentro das escolas tal acontece. Eu, que levo mais de quarenta anos ininterruptos no ensino secundário, não o detecto, nem em mim nem nos muitos com quem convivo diariamente, nem naqueles com quem contacto com frequência, professores na sua maioria. E nos alunos também não noto nenhum entusiasmo especial, digamos.

Quem tivesse dúvidas podia perguntá-lo a docentes e discentes. O que está errado então? A escola não tem boa saúde, por mais que lhe queiramos suavizar as dificuldades. E tapá-las com algum tipo de “verniz”, mesmo que dado por instituições internacionais não resolve os problemas. Agora, se os olhássemos de frente, talvez.

José Batista d’Ascenção

(*) Texto publicado ontem no jornal «Público», pg. 8 da versão impressa.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

As plantas na Obra Poética de Camões

Veio de longe, da margem sul, de onde partiu de madrugada. Começou a sessão na Escola Secundária Carlos Amarante (em Braga) pouco passava das 11.00 horas. Assistiram vários professores e três turmas de alunos: uma de décimo ano, outra de décimo primeiro, ambas dos cursos científico-humanísticos, e uma de décimo segundo ano, esta de línguas e humanidades.

Humilde e franco e disponível, como sempre, o Professor Jorge Paiva.

Falou, mostrou, esclareceu e encantou.

Entre os alunos havia os que estavam fascinados, e quiseram perguntar-lhe várias coisas. Era grande e manifesto o interesse de vários perante alguém que lhes trouxe novidades que ninguém na assistência conhecia, para além das directamente focadas na conferência, por exemplo, que há uma planta e um animal (um gafanhoto) a quem foram dados nomes científicos em homenagem a Luís de Camões, por investigadores que não eram portugueses.

Pouco depois do término, o Professor Paiva partiu feliz, no comboio das 14.00 horas, para chegar a casa ao fim da tarde.

Ficámos de coração cheio.

Obrigado, querido Mestre.

José Batista d’Ascenção

domingo, 12 de abril de 2026

Terceiro período 25/26: partida para a recta final

São (apenas) oito semanas.

Os meus cachopos do décimo primeiro ano têm exame e estão, na maior parte, preocupados. Como têm objectivos, compreende-se. «Alma até Almeida» - vou ver se os animo.

Os do décimo segundo estão mais lassos, mas não devem. Não haver exame não é razão para se aplicarem menos. E eles baixaram no segundo período. Ainda não sei qual é a minha quota-parte de responsabilidade nisso, mas trabalharei com eles e por eles tanto quanto me for possível. Até à última aula. Que façam a parte deles, cada um a sua, naturalmente. Vou insistir nisso.

Se queremos ter sorte temos de trabalhar muito para a fazer acontecer.

Da minha parte, está pubicamente prometido.

José Batista d’Ascenção