sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Inflação de notas nas escolas portuguesas

O jornal «Público» de hoje dedica um artigo ao assunto. E revela dados que deviam escandalizar, mas  não espantam ninguém. Por exemplo:

- em 38 escolas privadas cerca de um terço dos alunos têm 19 ou 20 a todas as disciplinas!;

- as escolas públicas têm vindo a seguir as privadas na subida geral das notas;

- as notas são especialmente elevadas nas disciplinas não sujeitas a exame nacional;

- um investigador português da Universidade de Oxford – Pedro Freitas - diz que as classificações aumentaram muito no tempo da pandemia «até porque os professores tinham menos elementos para avaliar os alunos»... [E se tinham menos elementos de avaliação, se ensinaram menos e se os alunos aprenderam pior, porque é que inflacionaram as classificações? – pergunto eu] e que, depois disso, «as notas permaneceram encostadas lá em cima». [É caso para perguntar: porque é que as estruturas do ministério da educação não intervieram?];

- o mesmo investigador põe a questão de saber se «…estes colégios estão a atribuir classificações que não correspondem ao desempenho e conhecimentos reais dos alunos?» [Que ideia, eles faziam lá uma coisa dessas?];

- entre questões muito pertinentes, que Pedro Freitas (também) coloca, há duas que devem ser para rir, que é saber «se este aumento das notas altas revela alguma coisa sobre a melhoria da qualidade do sistema educativo» e «se temos hoje melhores alunos do que há uns anos.»

Eu sei a resposta a ambas: Não, a qualidade do sistema educativo não melhorou nos últimos anos e os alunos de hoje não são melhores, em média, do que os alunos de tempos anteriores.

Conclusão/interrogação (minha): para que servem aos decisores governamentais/ministeriais os dados disponibilizados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC)?

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sobre as elevadíssimas médias de entrada em alguns cursos universitários

[Este texto não deve ser lido por pessoas sensíveis, que sejam ou tenham sido professores]

Mais de quarenta anos como docente do ensino secundário, não deixo de me espantar com a abundância crescente de médias estratosféricas de entrada em vários cursos universitários. Isto devia ser muito bom. De resto, corresponde a grande aplicação de numerosos alunos, com elevadas capacidades cognitivas, dedicação e boa gestão da sua condição de estudantes. Essas «performances», como agora se diz, são também fruto do acompanhamento dos pais e da despesa que (muitos) fazem em explicadores (que chegam a ser mais do que um na mesma disciplina para o mesmo aluno).

Não se pense que não gosto de ter bons alunos e de os compensar merecidamente. Mas, em minha opinião, não há tantos génios assim no nosso país. Foi por isso, com um misto de tristeza e desconforto que, no final do ano lectivo passado, declarei para uma acta de avaliação do 3º período: …«os alunos com melhor rendimento tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»

Tão chocante como isto é o facto de só 3% dos alunos mais pobres terem obtido colocação nas universidades. No tempo do fascismo chegou-se a 4%!

Mas quem me manda a mim incomodar-me com o que não incomoda ninguém?

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há coisas que não se devem fazer nem dizer, mesmo na política (dos políticos que temos…)

Ontem optei por não escrever sobre o que agora registo. Saíra de consulta médica pouco auspiciosa e ouvi, nas notícias da rádio «Antena 1», o senhor primeiro-ministro referir, relativamente à bagunça desesperante que foi a classificação dos exames nacionais, que um dos problemas do processo radica na resistência de parte dos professores à mudança para o digital.

Senti tristeza e indignação. Os professores aceitam e aderem de bom grado a todos os meios, particularmente os digitais, que diminuam a burocracia e facilitem o (seu) trabalho. É tão assim que devia ser cristalino para todos, mormente os governantes.

Não aprecio o actual governo, como não apreciei o anterior nem o anterior ao anterior…, porque há coisas que não aceito, particularmente as que ferem o (meu) conceito de ética, como seja um primeiro-ministro em exercício manter na sua residência particular uma empresa privada, ou os casos chocantes na saúde, do drama das parturientes ao das pessoas que morreram porque o socorro demorou incompreensivelmente, ou os projectos de leis laborais que parecem destinados a destruir direitos elementares dos trabalhadores pobres, etc.

Curiosamente, eu apreciava o trabalho de Fernando Alexandre, sobretudo por ter tido a coragem de extinguir organismos do ministério da educação que (me parecia que) existiam para dar funções aos que neles estavam colocados. A meus olhos, na composição do governo, quem também me parece merecer apreço é a ministra do ambiente. O que é pouco num elenco tão grande.

Por extensão…, a meu ver, os dirigentes políticos da actualidade são uma decepção continuada e um perigo para a credibilidade da democracia. Problema maior, para mim, é a interrogação: havendo novas eleições, quem é que os portugueses escolheriam?

E tenho medo, confesso.

José Batista d’Ascenção

domingo, 5 de julho de 2026

À espera, à espera...

Que devemos pensar? Agora mesmo, quando (mais uma vez, e foram várias vezes hoje) «cliquei» em classificações «online» (de respostas de exames nacionais), na plataforma do IAVE, apareceu isto:

Fica a gente em estado de estupor.

José Batista d'Ascenção

domingo, 28 de junho de 2026

À espera…

Por estes dias devia estar a “corrigir” provas de exame. Mas continuo à espera, hoje como ontem, anteontem, antes de anteontem…, das respostas de exame que devia estar a classificar.

A sensação é estranha e triste: por mim e pela minha profissão, pelos alunos e pelo meu país (que não consegue melhorar nada de coisa nenhuma nos tempos que vão correndo).

Não quero pôr sal na ferida, nem dramatizar o que não está bem, mas não posso nem devo fugir a este registo. E, já que estou com as mãos na massa, acrescento o que no Verão passado acabei por esconder, relacionado com exames: “carimbado” com provas na 1ª fase, havia (ainda) de caber-me a apreciação de recursos. Depois de atrasos na recepção dos exames digitalizados a reapreciar, devido a «questões técnicas», quando feito o trabalho, que incluía 3 ficheiros por cada reapreciação (não bastava um!), para além da grelha de classificações, os quais, ainda vazios, já tinham o tamanho digital máximo que a plataforma admitia para a submissão, logo que se registava neles o que quer que fosse, ainda que mínimo, ultrapassavam o tamanho estipulado, impossibilitando a dita submissão.

Então, como agora, senti tristeza e pena, que aumentaram quando “supliquei” presencialmente aos elementos do «agrupamento de exames» que fizessem chegar a apreciação que fiz, por escrito, sobre as limitações encontradas, em que referia o amadorismo e a incompetência de quem desenhara tais instrumentos, com a falta de qualidade que tinham.

Não tenho a certeza de que tenha valido alguma coisa.

Transportando-me para o presente: Continuo a aguardar.

Eu e tantos…

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A visão da Escola com que me identifico, desde sempre

(…) «Está certa a ideia de que uma criança não aprende sozinha nem com os pares que saibam o mesmo, isto é, o professor tem um papel imprescindível na aprendizagem.

(…) A ideia de que as crianças descobrem o seu próprio saber é muito ingénua. Podem e devem ser postas a questionar, a fazer conjecturas, mas certamente vão chegar, como a Humanidade chegou no passado, a conclusões erradas. (…) Não descobrem, de repente, aquilo que à Humanidade demorou séculos a descobrir. Por isso é que o ensino é indispensável. (…) A escola serve para transmitir às gerações actuais o melhor que as gerações anteriores nos legaram, incluindo nessa herança o corpo de conhecimentos sobre o mundo e o método para o adquirir, que se chama ciência. (…) É um erro abandonar o «ensino directo» em favor do «ensino centrado na criança». (…) Em ciência há conceitos científicos, destilados por todo um desenvolvimento cumulativo da ciência, e não há lugar a conceitos alternativos.

(…) Seria bom que, em vez de contínuas «experimentações pedagógicas» baseadas em visões construtivistas deturpadas, fossem valorizadas (…) formas de ensino empiricamente testadas e que é preciso seleccionar. (…) Não se quer com isto dizer que a curiosidade e vontade de mexer dos alunos devam ser reprimidas em favor de uma visão passiva. Antes pelo contrário.

(…) É curioso que (…) o computador pessoal, [que] apareceu no início dos anos de 1980, tenha alimentado a ideia mirífica do «ensino centrado no aluno». (…) A prática veio a mostrar (…) que os professores não são dispensáveis. (…)

(…) A escola foi inventada no tempo dos antigos Gregos como uma relação entre mestre e discípulos, tendo como horizonte o conhecimento, e (…), a escola continua a ser, na sua essência, essa relação. (…)

(…) Em Portugal os professores estão de tal modo habituados a ter de seguir determinações do aparelho estatal que nem têm tempo para pensar e planear o seu trabalho de acordo com o conhecimento científico. (…) As vítimas (…) são (…) os alunos, principalmente aqueles vindos de meios mais desfavorecidos que, sem escola, não têm possibilidade de acesso ao melhor que a Humanidade tem para lhes dar (…)

(…) Muitos «teóricos» da educação, que a cada oportunidade política manipulam [os] programas [curriculares] (…), não sabem bem o que é a ciência, quando a apresentam (…) como uma mera construção social. (…)

(…) Às escolas e aos professores devia ser dada liberdade pedagógica, em vez de serem impostas (…) coisas difusas [como as] chamadas «competências». [E bem assim, princípios, objectivos e métodos, que] vêm embrulhados em prosa obscura, como é exemplo o (…) Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória. (…) O valor maior devia ser o do conhecimento, e não os valores (…) da utilidade e da rentabilidade (…). Não há que ter medo dos testes, pois as medidas que eles fornecem, ainda que imperfeitas, acabam por ser melhores do que nenhuma medida.»(…)

David Marçal, in: «A Ciência E Os Seus Inimigos». Carlos Fiolhais e David Marçal. Gradiva. 5ª ed. 2022. 222-227 p.

José Batista d’Ascenção