Já posso fazer uma confissão: a avalanche de notas altíssimas, não poucas delas de vinte!, causam-me decepção e tristeza. Confesso-o porque não consigo contrariar a onda nem fugir ao turbilhão. Penso que não é bom para os alunos e é mau para a escola e para os professores e para a sociedade. Um vinte dá-se (ou devia dar-se) esporadicamente a alunos extraordinários (extra-ordinários, quero significar) quando eles aparecem (porque os há), não sei com que “periodicidade” (de vinte em vinte anos?), mas não assim, a encher pautas até meter fastio.
A culpa não é dos alunos, nem daqueles que se “autoavaliam” (a autoavaliação é um mito com consequências, de que também não são responsáveis) como se fossem perfeitos e sábios, que eles talvez não saibam que não são.
Isto que afirmo não é diminuir os bons alunos, nem os melhores deles.
E também não é culpar os pais, mesmo aqueles que exercem pressões e ameaças que deviam ser inadmissíveis e frontalmente rechaçadas.
Como (quase) ninguém parece querer ver nada (alguns falaram, mas depois ficaram mudos…), no que eu não alinho, registo, para que conste, que há várias medidas que podem ser tomadas, nenhuma delas perfeita, e entre elas uma que é a minha preferida: Aos professores do ensino secundário devia caber a preparação dos alunos para que eles ficassem a saber. A cada universidade devia caber a responsabilidade e o trabalho de seleccionar os que estivessem preparados para nela ingressar. Desse modo, os alunos e os seus pais passavam a preocupar-se com o que é preciso aprender e saber e não com um número conveniente, justo ou injusto, real ou fictício, afixado numa parede.
Entretanto, por mor dos meus pecados, e com grande desconforto, lá ditei para a acta: «Da análise das opiniões manifestadas pelos alunos, sobretudo pelos que têm melhores classificações, na aula destinada à avaliação do trabalho realizado ao longo do ano, verifica-se que esses alunos tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»
Com o maior respeito pelos meus alunos.
José Batista d’Ascenção






