domingo, 13 de setembro de 2026

Educação ou deseducação?

Descoroçoados pelos resultados dos alunos de 15 anos no estudo PISA, ainda frescos, interrogamo-nos sobre as causas do forte declínio sofrido na última década, depois de termos atingido níveis animadores no decurso dos primeiros 15 anos do milénio. As opiniões não são consensuais, mas eram muitos os docentes das nossas escolas que viam nas políticas educativas e metodologias seguidas a antecipação da desgraça. Conto-me entre esses.

Os efeitos da pandemia, que existem, não podem ser tomados como atenuante. Nesses anos, nós, os professores, sabíamos que estávamos a ensinar efectivamente muito pouco e que os alunos não estavam a aprender. Como nos foi permitido suportar as opiniões de muitos nos conselhos de avaliação de que os alunos não podiam ser “prejudicados”, motivo invocado explicitamente para elevar as notas atribuídas? E como foi possível que as chamadas “comissões de avaliação interna” de algumas escolas integrassem esses valores nos referenciais dos anos lectivos seguintes, estimulando ainda mais a subida das notas?

As famílias, a sociedade e, obviamente, a escola estão às aranhas. São muitas as opiniões, mas tenho dúvidas de que surjam delas boas medidas para o futuro, se continuarmos a funcionar como até aqui…

Na minha busca incessante de caminhos viáveis, acabei de ler a obra «O fim da educação» de António Carlos Cortez, e nela vejo espelhadas muitas das preocupações que sempre foram minhas, enquanto professor, particularmente quando considera que «um 18 de hoje equivale, no fundo, a um 11 de há 30 anos», que «os maus resultados dos estudantes nos estudos internacionais (…) são o espelho fiel da falta de exigência e da ideologia facilitista…» ou  que «o sistema educativo decapitou as gerações mais novas».

Se não decapitou, andou lá perto. 

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Socorro! Estou com medo de ficar rico!

Recebi por ter classificado 75 respostas de exame 75 euros. Para a Caixa Geral de Aposentações descontei 8,25 euros. De IRS retiveram-me 30 euros (40%).

No meu bolso ficam 36,75 euros.

Se eu fugir para Espanha, procurem-me na estrada, não muito longe da porta de casa.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Decorrem exames no ensino secundário

«Época especial» é a designação que consta nos envelopes em que chegam as provas e nas folhas de resposta. «Época extraordinária» é como está nas pautas de chamada. Outros chamam-lhe «3ª fase».

Não foram poucos os inscritos, especialmente nas disciplinas de Português (46), Matemática A (61), Física e Química (70) e Biologia e Geologia (54), na Escola em que trabalho. Naturalmente, alguns não comparece(ra)m.

Esta manhã coube-me uma vigilância, que se fez sem custo, e em que não houve nada de novo, excepto o alerta, às onze, de que faltava meia hora para o fim da prova, podendo cada aluno usar ou não a tolerância de trinta minutos.

Objectivamente, a realização destes exames não causa transtornos nem prejuízos de monta. Vêm a destempo, não apagam as injustiças que tenha havido, mas até permitiram tempo acrescido para alguns alunos se prepararem. Nem se pode dizer que o início do ano lectivo seja significativamente afectado, quer no ensino secundário quer no ensino superior (suponho…). Ressalvo o constrangimento para os alunos que ainda não entraram no ensino superior, relativamente à procura de alojamento e acomodação, que ficam dificultadas.

Para os professores que vão classificar as respostas (para o que também estou convocado) é trabalho extra, mal pago, mas não é isso que os atira abaixo, se tudo correr como deve.

Merecemos todos «boas entradas» no novo ano escolar.   

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Inflação de notas nas escolas portuguesas

O jornal «Público» de hoje dedica um artigo ao assunto. E revela dados que deviam escandalizar, mas  não espantam ninguém. Por exemplo:

- em 38 escolas privadas cerca de um terço dos alunos têm 19 ou 20 a todas as disciplinas!;

- as escolas públicas têm vindo a seguir as privadas na subida geral das notas;

- as notas são especialmente elevadas nas disciplinas não sujeitas a exame nacional;

- um investigador português da Universidade de Oxford – Pedro Freitas - diz que as classificações aumentaram muito no tempo da pandemia «até porque os professores tinham menos elementos para avaliar os alunos»... [E se tinham menos elementos de avaliação, se ensinaram menos e se os alunos aprenderam pior, porque é que inflacionaram as classificações? – pergunto eu] e que, depois disso, «as notas permaneceram encostadas lá em cima». [É caso para perguntar: porque é que as estruturas do ministério da educação não intervieram?];

- o mesmo investigador põe a questão de saber se «…estes colégios estão a atribuir classificações que não correspondem ao desempenho e conhecimentos reais dos alunos?» [Que ideia, eles faziam lá uma coisa dessas?];

- entre questões muito pertinentes, que Pedro Freitas (também) coloca, há duas que devem ser para rir, que é saber «se este aumento das notas altas revela alguma coisa sobre a melhoria da qualidade do sistema educativo» e «se temos hoje melhores alunos do que há uns anos.»

Eu sei a resposta a ambas: Não, a qualidade do sistema educativo não melhorou nos últimos anos e os alunos de hoje não são melhores, em média, do que os alunos de tempos anteriores.

Conclusão/interrogação (minha): para que servem aos decisores governamentais/ministeriais os dados disponibilizados pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC)?

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sobre as elevadíssimas médias de entrada em alguns cursos universitários

[Este texto não deve ser lido por pessoas sensíveis, que sejam ou tenham sido professores]

Mais de quarenta anos como docente do ensino secundário, não deixo de me espantar com a abundância crescente de médias estratosféricas de entrada em vários cursos universitários. Isto devia ser muito bom. De resto, corresponde a grande aplicação de numerosos alunos, com elevadas capacidades cognitivas, dedicação e boa gestão da sua condição de estudantes. Essas «performances», como agora se diz, são também fruto do acompanhamento dos pais e da despesa que (muitos) fazem em explicadores (que chegam a ser mais do que um na mesma disciplina para o mesmo aluno).

Não se pense que não gosto de ter bons alunos e de os compensar merecidamente. Mas, em minha opinião, não há tantos génios assim no nosso país. Foi por isso, com um misto de tristeza e desconforto que, no final do ano lectivo passado, declarei para uma acta de avaliação do 3º período: …«os alunos com melhor rendimento tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»

Tão chocante como isto é o facto de só 3% dos alunos mais pobres terem obtido colocação nas universidades. No tempo do fascismo chegou-se a 4%!

Mas quem me manda a mim incomodar-me com o que não incomoda ninguém?

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há coisas que não se devem fazer nem dizer, mesmo na política (dos políticos que temos…)

Ontem optei por não escrever sobre o que agora registo. Saíra de consulta médica pouco auspiciosa e ouvi, nas notícias da rádio «Antena 1», o senhor primeiro-ministro referir, relativamente à bagunça desesperante que foi a classificação dos exames nacionais, que um dos problemas do processo radica na resistência de parte dos professores à mudança para o digital.

Senti tristeza e indignação. Os professores aceitam e aderem de bom grado a todos os meios, particularmente os digitais, que diminuam a burocracia e facilitem o (seu) trabalho. É tão assim que devia ser cristalino para todos, mormente os governantes.

Não aprecio o actual governo, como não apreciei o anterior nem o anterior ao anterior…, porque há coisas que não aceito, particularmente as que ferem o (meu) conceito de ética, como seja um primeiro-ministro em exercício manter na sua residência particular uma empresa privada, ou os casos chocantes na saúde, do drama das parturientes ao das pessoas que morreram porque o socorro demorou incompreensivelmente, ou os projectos de leis laborais que parecem destinados a destruir direitos elementares dos trabalhadores pobres, etc.

Curiosamente, eu apreciava o trabalho de Fernando Alexandre, sobretudo por ter tido a coragem de extinguir organismos do ministério da educação que (me parecia que) existiam para dar funções aos que neles estavam colocados. A meus olhos, na composição do governo, quem também me parece merecer apreço é a ministra do ambiente. O que é pouco num elenco tão grande.

Por extensão…, a meu ver, os dirigentes políticos da actualidade são uma decepção continuada e um perigo para a credibilidade da democracia. Problema maior, para mim, é a interrogação: havendo novas eleições, quem é que os portugueses escolheriam?

E tenho medo, confesso.

José Batista d’Ascenção