domingo, 20 de dezembro de 2020

Ensinamentos da pandemia no cumprimento dos horários escolares

Imagem colhida aqui.

Década após década, algo que nunca me foi particularmente agradável era a estridência de uma campainha a chamar para o início de cada aula ou a anunciar o seu fim. No meu inconsciente, nunca venci a preocupação prévia com cada lição, a qual, felizmente, sempre se desvaneceu momentos depois de a começar. Somado a esse factor havia sempre o desconforto de um tilintar a fazer-me sentir um desamparado “cão de Pavlov”, eu que, regra geral, sofro de incapacidade de chegar atrasado, característica que pode não ser do agrado de muito boa gente.

A este respeito, o meu amigo Zé Precioso, no início da década de noventa do fim do milénio anterior, costumava dividir as pessoas em três categorias: os “hiperpontuais” (em que me situava a mim e ao nosso colega Luís Dourado, no curso que então frequentávamos), os “isopontuais” (como se definia a si próprio) e os “hipopontuais” (condição que aplicava a boa parte dos restantes colegas do mesmo curso).

Ora, por causa do conveniente desencontro das diferentes turmas no espaço escolar, optou-se na minha escola, e bem, por estipular criteriosamente os vários horários e calar a campainha, a fim de evitar a perturbação e a confusão que poderiam resultar da frequência dos toques.

Para alívio e surpresa da minha parte, desde logo me pareceu que, quer os professores, quer os alunos, quer os funcionários, cumpriam muito bem os respectivos horários sem necessidade da chocalheira habitual.

Foi um agradável ensinamento: os portugueses são muito capazes de respeitar os relógios. E eu, com a minha fraca audição, vi desaparecer um aspecto do meu trabalho que nunca me agradou. E que gostava que não fosse recuperado, quando as vacinas (já faltam poucos meses!) nos libertarem dos receios e dos constrangimentos actuais.

Até lá.

Por agora, e antes disso: Um Natal com saúde.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O desalento de muitos professores

Imagem colhida aqui.

A minha amiga de longa data, São B., é professora há tantos anos como eu e trabalha na capital do Baixo Alentejo. Este ano calharam-lhe alunos de três níveis, incluindo duas turmas do ensino básico. Como não desiste de ser rigorosa e se aplica com todas as suas forças, está pelos cabelos. A fazer sessenta anos, lutadora tenaz contra os azares da vida, incluindo um cancro muito agressivo, que venceu, vê com muita tristeza e desalento a deseducação e desinteresse das criancinhas, que não se comportam como crianças na sua “recusa de aprender” e fazem o possível para se tornarem insuportáveis, no que contam com a sua oposição firme e determinada, que ela não é mulher de morrer de medo, nem lá perto.

Na troca de «mails» que tivemos por estes dias deu-me nota da sua saturação. Não fosse a penalização da reforma antecipada ser tão grande, diz-me ela que já «mandava tudo às urtigas». Reconheci que os tempos são cada vez mais difíceis e adiantei que a formação pedagógica que proporcionaram aos professores não os preparou para, nem previu, minimamente, as dificuldades reais que encontraram. Contrapôs ela que «não fomos ensinados para lidar com tal gente e ainda bem que não fomos”, porque não crê que «fosse algo com que que devamos aprender a lidar». Sentindo a sua dor, optei por não a contrariar. Que adiantaria dizer-lhe que era ilusória a «ciência pedagógica» mais ou menos fundada em virtudes angelicais do género humano, aplicada a tenras crianças, que havia de traduzir-se em lamentável estímulo à sua deseducação, multiplicada e propagada contagiosamente de umas para outras, para mais numa sociedade (educativa) mutável, cuja evolução ninguém foi capaz de prever?

A sociedade abandonou os seus professores. As universidades que os diplomaram não têm orgulho nem confiança neles. O ministério da educação trata-os como incapazes. As direcções das escolas representam o ministério: veja-se que, em tempos relativamente recentes, quando muitos pais foram à escola bater em professores, que não podiam defender-se, a primeira coisa que acontecia a esses professores era instaurarem-lhes um processo; por outro lado, quantos dos agressores foram responder a tribunal?

Os professores estão envelhecidos, muitos deles doentes e sós. E têm consciência aguda desse facto.

Num quadro assim, quais poderiam ser as expectativas dos alunos em relação à escola e aos professores?

Por tais razões, «cansada, farta e frustrada», a minha amiga não tem «dúvidas de que estamos a reproduzir os desprovidos de neurónios» (…), pelo que «não prevê bom futuro para a espécie humana».

Referi o caso da minha amiga apenas como exemplo concreto. Suponho que poderia multiplicá-lo pela maioria do corpo docente. Desde os que tentam animar-se aos que mete(ra)m atestado médico “preventivo” e aos que vão para a escola tão acabrunhados que mal o confessam.

A realidade é a que é.

Porque não queremos vê-la?

José Batista d’Ascenção

sábado, 5 de dezembro de 2020

Alunos de muitas proveniências - como ensiná-los bem, a todos?

Fonte da imagem: aqui.

Por múltiplas razões, a mobilidade dos cidadãos acentuou-se nas últimas duas-três décadas. Portugal, país de emigrantes, tornou-se, também ele, como a Europa, de que faz parte, destino de muitos estrangeiros, individualmente ou por junto, incluindo grupos familiares. Chega(ra)m dos países de leste, após a fragmentação da URSS, com o colapso do regime político daquela união e dos seus satélites, da China, de imensas regiões do norte de África, do Brasil e da Venezuela (neste caso trata-se de portugueses ali emigrados e/ou dos seus descendentes).

As crianças nascidas destes “viajantes” são em número significativo nas nossas escolas. Este contributo para a renovação da juventude portuguesa não pode deixar de influenciar positivamente (espera-se) o futuro de Portugal, face aos baixos valores da natalidade no país.

Sou dos que vêem com bons olhos este aporte populacional, que espero que se traduza em enriquecimento cultural e económico dos portugueses.

Por outro lado, penso que, se os meus netos, como outras criancinhas filhas de jovens portugueses emigrados por esse mundo fora (fugidos à pobreza do país) regressarem, maiores e melhores serão as perspectivas do tempo que há-de vir, neste cantinho, berço antigo e duradoiro do que fomos e seremos.

Para isso é preciso que a escola trabalhe melhor, o que está perfeitamente ao nosso alcance. Estas crianças e jovens que “vêm de longe” (mesmo se nascidas cá) parece-me terem uma atitude diferente e mais favorável relativamente ao cumprimento dos seus deveres do que aqueles que são ancestralmente portugueses, mais propensos à batota (que chega ao cúmulo de ser exigida como “direito”), à desculpa esfarrapada, à fraqueza da inveja, ao alijar de responsabilidades, etc. Claro que nem todos somos assim (nem os estrangeiros são melhores do que nós), mas estes traços caracterizam-nos, desde as primeiras gerações. E o resultado é o que somos e o que temos intramuros. Se vamos lá para fora, não nos aparam o jogo e, por isso, o desempenho melhora. Aquela ideia de que só fogem do país os mais capacitados – os melhores de nós – carece de demonstração.

No que me toca, sinto-me privilegiado por poder trabalhar com jovens de muitas proveniências. E acarinho-os e encorajo-os tanto quanto posso, porque acredito neles. De algum modo para compensar o falhanço de cidadania e desenvolvimento que atribuo à geração de que faço parte.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Novas exigências do ensino, em mais um ano lectivo (já) bastante prejudicado

Fonte da imagem: aqui.

Aproxima-se o fim do primeiro período, que teve início em meados de Outubro. O aumento do número de casos de «covid 19» fez com que alunos isolados ou grupos de alunos ou turmas inteiras ficassem em casa, em isolamento, vários dias, numas alturas uns, noutras alturas outros, e às vezes todos. As escolas não estavam (bem) equipadas (nem estão) para se fazer bom ensino à distância, o mesmo acontecendo na casa de muitos alunos, pelo que se foi fazendo o possível, entre sessões «on-line» e aulas presenciais ou usando câmaras nas salas de aula fazendo, ao mesmo tempo, ensino presencial e à distância (neste caso com sérias limitações quando, para além do projector, se tinha de fazer uso do quadro de escrever à mão).

Como o fim da pandemia não vai ser resolvido nos meses imediatos, e estas perturbações vão continuar (não obstante o treino forçado nas improvisações, que resolve algumas delas), já não há dúvidas (no meu espírito) de que este é mais um ano lectivo comprometido.

A estas dificuldades somam-se outras, algumas delas cada vez mais comuns no nosso país. Aquando do início das aulas, achei curiosa a variedade de nomes ou apelidos com que não estava familiarizado, de alunos inscritos nas minhas turmas, tais como: Yago, Kubijan, Nicholas, Maggio, Alejandro, Cuberos, Sadowski, Ioannis, Nikolaos, Kokkinovrachos, Monferrari, Kailany, Aiko, Horaguti, Utsunomya, Matheus, Alyssa, Tiffany, Porelli, Worsnup. E se alguns deles têm conhecimentos de base, capacidade e organização para fazerem um bom trabalho, outros, ainda que com vontade, estão em situação de inferioridade. Na realidade, há entre estes meninos quem nem sequer consiga ler minimamente bem.

Para além disto, surpreende-me a prática, que a lei permite, de os alunos da mesma escola pedirem com toda a facilidade para mudar de turma, a todo o momento. No fim de Novembro, dois meses e meio de aulas decorridos, recebi mais dois. Segundo alguém me disse não estariam satisfeitos com as classificações dos primeiros testes entretanto realizados nalgumas das disciplinas que frequentavam. E vá de trocar de turma, iniciando outras disciplinas a que não sabem se vão conseguir melhores resultados, tanto mais que já perderam cerca de um terço das aulas possíveis este ano. Não sei se isto corresponde a algum entendimento do que seja a flexibilidade curricular, mas não era mau que os alertassem para os efeitos indesejáveis que possa haver, até nas boas classificações que muitos alunos perseguem, com toda a legitimidade, aliás, desde que de modo sério e responsável.

Problema maior ainda é o que se está a passar com o ensino dos meninos do ensino básico, particularmente aqueles que têm menor rendimento escolar (a maior parte deles provenientes de famílias pobres). Creio que por causa das estatísticas “positivas” que é preciso fornecer à OCDE, há uma enorme pressão sobre os professores, no sentido de que todos os alunos devem passar, o que em si não é mau, mas que leva a que os docentes atribuam generalizadamente “níveis positivos” (e tendencialmente altos), como se o rendimento fosse efectivo. O problema é que não é, e todos sabemos disso. Creio igualmente que esta situação se relaciona com uma forte oposição à realização de exames, porquanto todos sabem também que aqueles meninos estão (frequentemente) muito (senão completamente) impreparados. Ora, não temos o direito de nos iludirmos nem de enganar os alunos. Devia afirmá-lo o governo, os professores deviam exigi-lo como princípio e os institutos pedagógicos e os que têm o título de especialistas de educação não deviam olhar para o lado nesta matéria.

Já os encarregados de educação, esses talvez continuem a não exigir nada, porque, mais focados nas classificações dos seus educandos, parecem alheios à gravidade do problema.

Em consequência, perde o país e perdemos todos.


José Batista d’Ascenção

domingo, 22 de novembro de 2020

O que valem o talento, a paixão, a generosidade e o empenhamento

E a importância que têm na formação dos professores e das crianças e jovens.

Imagem de uma apresentação do Prof. Galopim de Carvalho
para uso dos professores, retirada do seu mural do "facebook"

Ainda bem não leio a frase: “temos a geração mais bem preparada de sempre”. Dava-me jeito, mas não “compro” a ideia. Primeiro teríamos que discutir o que se entende por “preparação”. De todos, já agora. De todos nós, portugueses, que vivemos numa sociedade democrática e temos o dever do exercício da cidadania. Somos o que somos, claro, e em muitas partes do mundo não se vêem motivos mais estimulantes ou extinguem-se os que supúnhamos bem consolidados. O que não serve de consolação, antes pelo contrário. Adiante.

O motivo destas linhas é a acção de divulgação científica, de pedagogia e de exemplo cívico de alguém que admiro e estimo sem limites: o Professor Galopim de Carvalho.

Este Homem Bom não desiste. Não desiste de auxiliar e estimular os professores (do básico e do secundário) e de ensinar cidadãos, mormente os alunos, desde as criancinhas aos (mais) crescidos. De uma humildade tocante e exemplar, trabalha sem descanso, numa atitude que faz equivaler a «férias permanentes»! Ajuda e resolve muitas fraquezas do corpo docente, que anima como poucos.

O Ministério da Educação e o país, na sua mais alta representação, bem podiam e deviam dar ênfase ao seu labor e seguir o seu exemplo. Em meu entender, a maior parte da formação que tem sido formalmente prestada aos professores nas últimas décadas, mesmo com a introdução dos meios digitais, não melhorou a qualidade intrínseca do ensino e da pedagogia. E os professores frequenta(ra)m-na, as mais das vezes, obrigados pelos requisitos de progressão na carreira e, nalguns casos, por imposição  do próprio Ministério.

Diferentemente, e como deve ser, quando o Professor Galopim elabora materiais que põe à disposição dos professores, sempre bem feitos, em linguagem clara e escorreita e cientificamente rigorosos, os professores aderem, agradecem e pedem mais. Ou seja: os docentes estão ávidos de formação: boa e acessível, facilitando imenso se for gratuita.

Não podia deixar de fazer este registo, eu, obscuro professor do ensino (básico e) secundário. Cheio de gratidão ao distinto cidadão, mestre e amigo.

José Batista d’Ascenção

domingo, 8 de novembro de 2020

Como ensinamos mal ciência – um exemplo.

Charles Darwin [imagem obtida via «Google»]

Há alguns anos, num exercício de formação obrigatória prestada pelo GAVE/IAVE, nós, os formandos, fazíamos a discussão de uma resposta bastante defeituosa, dada em exame (de um ano anterior), para aferirmos a classificação (que teria sido) mais justa naquele caso específico.

A questão pretendia uma fundamentação baseada na teoria darwinista da evolução e a resposta em análise, bastante confusa, incluía uma referência atabalhoada à importância do «uso e do desuso» na modificação dos órgãos dos seres vivos.

Ora, a «lei do uso e do desuso», que traduzimos vulgarmente pela frase «a função faz o órgão» foi proposta primeiramente pelo evolucionista Jean-Baptiste de Monet (1744-1829), conhecido por Lamarck, que é anterior a Charles Darwin (1809-1882).

Acontece que Darwin, conhecedor profundo do trabalho de Lamarck, considerava, como ele, «o uso e o desuso” na modificação dos seres vivos e a transmissão à descendência das características adquiridas por essa via. Isso está abundantemente registado e exemplificado na sua obra «On The Origin of Species» publicada pela primeira vez em Londres, em 1859. A primeira tradução para português dessa obra só aconteceria mais de 50 anos depois, em 1913, pelo médico Joaquim Dá Mesquita Paul. O jornal «Público» republicou-a recentemente. Nesta tradução, as referências ao «uso e desuso» encontram-se, salvo erro, em 25 das suas 506 páginas.

Contudo, Darwin explica a evolução de modo inovador, relativamente aos evolucionistas anteriores, com uma fundamentação extensa e profunda, dificilmente rebatível no essencial.

Voltando ao trabalho de discussão daquela resposta dada em exame (de que ignorávamos a cotação atribuída), o “consenso” obtido então (longe da unanimidade, no entanto) foi o de que se devia descontar na classificação a atribuição “errada” de uma perspectiva lamarckista à fundamentação darwinista pretendida. Foi assim, erradamente.

O ensino/aprendizagem de crianças e jovens requer, obviamente, simplificações e analogias que facilitem a aquisição e a compreensão do conhecimento. Mas não é incomum a adulteração do fundamental, restringindo a substância do saber a fórmulas feitas que, longe de incentivar e apaixonar, formatam errónea e persistentemente mentalidades e raciocínios e matam o gosto de aprender.

No domínio das ciências, também foi assim que se formaram/formataram os professores. O que não facilita nem enobrece a sua função e suponho que contribui (largamente) para o descrédito que a ignorância atribui ao valor do conhecimento científico.

Em Portugal e no mundo.

José Batista d’Ascenção

sábado, 31 de outubro de 2020

Modalidades de ensino e desigualdades na aprendizagem dos alunos

Fonte da imagem: aqui.

Nesta altura, quase todos os (meus) alunos estão presencialmente nas aulas, as quais, tendo em conta os constrangimentos do presente, decorrem com (a) normalidade (possível).

Receio que mais alguns deles contraiam o novo coronavírus e que, por essa razão, aumente o número dos que ficarão temporariamente em casa. Claro que também pode acontecer que seja eu ou alguns dos meus colegas a ficarmos doentes ou de quarentena, o que aumentará as dificuldades com que nos confrontamos. E esses problemas podem generalizar-se se, com o agravamento do frio e da chuva, houver necessidade de fechar portas e janelas das salas de aulas, encerrando os alunos durante os períodos lectivos (que podem ser de noventa minutos) numa atmosfera húmida e viciada (até agora temos mantido janelas e portas abertas).

Confrontados com a adversidade, admitem-se alternativas e, entre elas, o que agora se chama “b-learning”: b de “blended”, com o significado de “mistura” de ensino presencial e à distância.

Ora, o ensino à distância já existe há muito tempo: a “telescola” funcionou entre nós, e relativamente bem, durante muitos anos, desde 1965, tendo sido retomada recentemente através da “RTP Memória” (com o nome de “Estudo em Casa”); eu frequentei o “ano propedêutico” em 1979/80, através da televisão; a “Universidade Aberta” é uma realidade, desde 1988; etc. Mas o ensino não presencial não funciona com as crianças e funciona mal com os adolescentes, por razões psico-afectivas, pedagógicas e sociais. Acontece que as condições económicas precárias são uma agravante de peso em grande número de famílias portuguesas. Convém salientar, por outro lado, que os problemas deste tipo não se resolvem com a hipotética atribuição de um computador a cada aluno, o que, de resto, já se tentou sem resultados palpáveis.

Temos, portanto, que fazer tudo para que os alunos frequentem fisicamente o espaço escolar, porque não temos nada melhor nem tão bom que o possa substituir.

Quanto a estrangeirismos como “b-learning” e outros podem perfeitamente traduzir-se para português escorreito. Não faltam expressões adequadas: naquele caso, talvez servissem “aprendizagem semi-presencial” ou mesmo “aprendizagem multiforme” ou “aprendizagem plurimodal”, por exemplo. “Ensino misto” ou “ensino híbrido” parecem-me formulações com significado ambíguo. A linguagem deve compaginar-se com a realidade, traduzindo-a e esclarecendo-a, muito especialmente no ensino. O fraseado da moda (indígena ou importada) confunde mais que resolve o que quer que seja. Nem nesta área se vislumbra qualquer solução revolucionária, justa e equitativa, nem as ilusões ou miragens, nacionais ou estrangeiras, são aconselháveis.

Qualidade, equidade e justiça na educação de todas as crianças são os objectivos a perseguir.

Com a desejável prudência de não descambar na “invenção da pólvora”.

José Batista d’Ascenção

domingo, 25 de outubro de 2020

A formação (des)necessária

Imagem obtida aqui.

Atarefado na elaboração e correcção de testes (versão 1 e versão 2 para cada turma, como passou a ter de ser quando os alunos deixaram de ter mesas individuais ou se sentam muito próximos, lado a lado) dei de caras com a solicitação, via correio electrónico, para me inscrever numa acção de formação intitulada «A formação desnecessária». Ainda agora hesito sobre se me hei-de inscrever ou não: Será necessária?

Desde há longos anos, principalmente quando a formação se tornou obrigatória para a progressão na carreira, que procuro ser criterioso na escolha da que devo frequentar. Nem sempre o consegui, que anos houve em que o ministério obrigou alguns professores à frequência de acções sobre avaliação de professores que mandou ministrar, o mesmo acontecendo com o GAVE/IAVE, a pretexto da imprescindibilidade de formação supostamente preparatória da classificação de exames nacionais. Neste caso, pese o empenho e a competência da formadora, as três que frequentei foram praticamente inúteis. Tanto que a quarta, que estava num contrato formal a que me obrigaram, já nem se realizou, suponho que por indisponibilidade financeira. Não se perdeu nada. E relativamente à «avaliação de desempenho docente», coisa alguma teve qualquer dignidade: na teoria e na trágica aplicação.

Não me alongo no registo de muitas outras actividades (supostamente) formativas, além das que (me) foram impostas hierarquicamente. Apenas direi que tenho pena que demoremos tanto a corrigir ou anular o que nasce torto ou que degenera relativamente às boas intenções, porque não posso eximir-me ao testemunho de que o sistema de formação de professores fornece(u) muito pechisbeque inaceitável, que não contribui(u) em nada para a melhoria do ensino.

Mas não há boa formação?

Claro que há. Alguma que fiz com o Professor Jorge Paiva, no terreno, foi do melhor que podia ter frequentado. E essa até era gratuita. Igualmente de superior qualidade é a formação disponibilizada pelo Centro de Ciência Viva de Estremoz. São dois exemplos.

No fundo, o que mata o ensino é a pouca importância dada à aprendizagem efectiva dos alunos e às condições necessárias para que os professores possam pô-la em prática. A burocracia e as patetadas formal e legalmente justificativas (as «evidências»!) traduzidas em “planos”, “projectos”, “grelhas”, “listagem de medidas”, “inquéritos digitas” e quejandos, sobrepõem-se ao trabalho real com os alunos reais e destinam-se a passar verniz sobre o falhanço do «sistema educativo».

Os professores precisam de estudar continuamente e de saber muito mais do que aquilo que lhes cabe ensinar. Ninguém ensina o que não sabe. E para isso é preciso que sejam bem preparados e libertados de toda a ganga burocrática, em discurso macarrónico, que assentou arraiais nas escolas.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A atitude com que alguns alunos encaram os seus deveres

Imagem adaptada, obtida aqui.

Acordáramos que a ficha de trabalho seria realizada em tempo de estudo e de treino em casa e que eu verificaria, na aula desdobrada, oito dias depois, a execução por cada um.

Todos fizeram excepto o B. E não deu nenhuma razão plausível para o facto. Não fez, simplesmente.

Iniciámos a correcção e, como costume meu, solicitei imediatamente o B. para o primeiro exercício.

Muito espantado, o aluno pediu a palavra, mas não propriamente para tentar responder, antes para perguntar, respeitosa, mas assertivamente:

- Se o professor sabe que não fiz o trabalho, nem me preparei, nem sei responder, porque me escolhe a mim para dirigir as perguntas?

Ao que respondi:

- Precisamente porque não trabalhou, vai trabalhar agora, com a ajuda de todos.

De seguida, acrescentei que, ao privilégio de poder vir à escola, tem que corresponder a obrigação de estudar e de fazer os possíveis por aprender. E, em insistência abstrusa, mais disse que, havendo tanta gente que pensa que não é assim, então, cabe a essas pessoas procurarem as escolas que premeiem a falta de aplicação, onde quer que existam.

Duas aulas depois, o B. (já) não fazia parte da lista de nomes da turma.

No dizer dos colegas, terá mudado de curso.

Será que se tinha colocado à experiência, para saber se gostava do «curso cientifico-humanístico de ciências e tecnologias»?


José Batista d’Ascenção

sábado, 17 de outubro de 2020

Perturbações comuns de professores e alunos neste Outono

Fonte da imagem: aqui

Obviamente imprescindíveis, as aulas presenciais decorrem nestes tempos de pandemia vírica com dificuldades múltiplas, entre as quais:

- o desconforto da máscara horas seguidas, afectando a dicção e a expressão;

- a necessidade de diminuir quer os movimentos nas aulas, quer as aproximações físicas, já de excessivas, devido ao número de alunos na generalidade das turmas, que torna o espaço lotado na maioria das salas;

- as actividades práticas reduzidas a demonstrações magistrais que implicam a inactividade e a passividade dos alunos, particularmente dos que se sentam no fundo da sala;

- a necessidade de desinfecções frequentes que obriga à colaboração de funcionários, professores e alunos na hiegenização dos espaços e do material usado nas aulas: mesas, teclado do computador, "rato", apagador, puxadores…;

- aulas mais sujeitas ao barulho nos corredores devido à circulação frequente durante os tempos letivos por causa do desencontro de horários, agravado pela recomendação de manter janelas e portas abertas;

- portas e janelas abertas durante as aulas vão, por outro lado, constituir um sério problema com a chegada próxima do frio e do vento típicos do Inverno, obrigando eventualmente a que professor e alunos se vejam forçados a fechá-las, encerrando-se, contra as normas, no espaço viciado da sala de aula;

- as limitações técnicas e de habilidade do ensino/apoio à distância, o qual funciona bem como meio complementar em tempo normal, mas não como método único e com diversos alunos com níveis de conhecimentos e dificuldades muito diferentes.

E porque os tempos mudam e (felizmente) temos nas escolas (também) um número significativo de crianças e jovens de outros países, mais difícil é para os professores promoverem a aprendizagem efectiva de tantos alunos com percursos escolares tão diversos. A individualização do ensino é um tema caro e clássico, mas impossível com salas cheias de aprendizes, onde a mobilidade (do professor) está limitada: o que já é difícil em condições normais, torna-se praticamente impossível em tempos que requerem mil cuidados de distanciamento físico. Por sinal, quinta-feira passada chegou-me mais um simpático e diligente aluno proveniente de Angola, a carecer de muito apoio, pelo que me foi comunicado.

Mas, de todos, o problema que (me) causa mais preocupação respeita à média de idades dos professores, às suas condições de saúde e estado anímico perante as teias burocráticas a que são submetidos.

Assim mesmo, far-se-á o possível.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Preservação do património natural - postal dirigido ao Presidente da Câmara Municipal de Sintra

«Exºmo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra


Dr Basílio Horta:


Creio que se interessa (tanto como eu) pela preservação do património natural do país (e do mundo) e, em particular, do que se situa no concelho de Sintra.

Por isso, concordará que não se pode permitir a degradação das pegadas de dinossauro de Pego Longo (Carenque).

Abordei este assunto com os meus alunos de 10º ano de escolaridade no âmbito da área transdisciplinar de cidadania.

À Câmara a que Vossa Excelência preside cabe desempenhar o estipulado no artigo 7º do Decreto nº19/97, de 05 de Maio.

Espero-o de si.

Com os melhores cumprimentos.

Sou: José Batista d’Ascenção, CC nº…

Braga, aos 12 de Outubro de 2020»


Seguiu hoje, em correio normal, como mera acção de cidadania.

Convidei os meus alunos a fazerem outro tanto, ainda que numa curta frase, ao gosto de cada um, em postal simples, num sobrescrito que lhes disponibilizo.

Alguns sugeriram outras acções, de que, a seu tempo, aqui farei registo.


José Batista d'Ascenção

terça-feira, 29 de setembro de 2020

E se os (poucos) funcionários de que as escolas dispõem não aguentarem?

Imagem obtida aqui.

A dez minutos do fim da aula do turno da manhã de hoje (13.10 h), lembrou-me um aluno de que tínhamos de desinfectar as mesas. Mandei vir os toalhetes, que se tinham acabado, pedi a todos que arrumassem o material nas mochilas e pus-me a aspergir cada mesa, uma por uma, até à vigésima oitava e, por último, a minha. Tão diligente foi a miudagem a limpar cada um o seu lugar que nenhum saiu depois da hora – a tarefa, mal ou bem, cumpriu-se naquela dezena de minutos roubados à aula efectiva.

Mais uns minutos demorei eu, após o que me pus a caminho para ir tomar uma bucha, à laia de almoço, no café das proximidades. Pude então presenciar a azáfama das funcionárias, aplicadas na limpeza dos enormes corredores e demais instalações, antes da entrada do turno da tarde.

Com ar exausto, uma delas deixava escapar: - «sinto vontade de chorar». Essa senhora vai fazer sessenta e oito anos, ainda não perdeu a simpatia, mas é normal que lhe vão faltando as forças. Outras três, que se juntavam na confluência dos corredores daquele piso, à minha passagem, também contam mais de sessenta anos. A fadiga de todas elas e o seu ar abatido percebia-se bem, apesar das máscaras.

Elogiei-lhes o desembaraço, mas não saciei a fome sem me interrogar, em silêncio: se estas pessoas ficarem de baixa, e se não houver substitutos, o que vai a escola fazer?

A resposta é o silêncio. Mas um silêncio nada confortável.

Foram aquelas pessoas e os demais funcionários que, em Maio passado, possibilitaram a retoma das aulas em condições de irrepreensível higiene. Deram então provas efectivas, dignas de elogio. Idêntico ao apreço e apoio que agora merecem e precisam, porque os alunos são em muito maior número.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O meu reinício do ano lectivo

Esta não é a distância entre os alunos na generalidade das aulas

Os meninos que este ano me couberam vêm do (ensino) básico. Nestas primeiras aulas, por detrás das máscaras, percebi neles (naturais) expressões de expectativa, reparei em alguns (bastantes) olhos brilhantes e, de modo geral, constatei atitudes de interesse e de participação, bem como de cordialidade e simpatia, o que muito me agradou.

Ficaram surpresos com a minha proposta de tema (luta pela preservação das pegadas de dinossauro de Pego Longo – Carenque) a abordar em «cidadania», aparentemente pouco entusiasmados, é certo. Por isso convidei-os a comunicarem a minha sugestão aos pais, e fiquei a aguardar… Entretanto, trabalho para lhes conquistar a confiança e para os entusiasmar tanto quanto possível na disciplina. Para voltar àquele assunto em ambiente mais favorável. Mas, principalmente, porque o programa é extenso e diverso e, na parte de biologia, bem pouco lógico e coerente.

Da correcção da ficha de diagnóstico confirmo, repetidamente, ao longo dos anos, uma impressão antiga: a abordagem à geologia no sétimo ano de escolaridade faz-se de tal modo que mais parece uma vacina de rejeição injectada nos garotos. O menor dos males é não saberem coisa nenhuma, desde que não detestem aquela área do saber. Vejo nisto um problema real de que quase ninguém se ocupa. O resultado não é auspicioso.

Sobrepondo-se a este e a outros problemas, os meus temores nesta altura são recorrentes: Em quantos destes meninos não deixarei embaciar a vivacidade do olhar? Que proporção deles deixarei sucumbir ao apelo das hormonas e dos sentimentos nos tempos de aulas, já daqui por uns meses? Em quantos conseguirei melhorar a impressão menos boa que têm das matérias? E – terrível questão! – em quais deles poderei, eventualmente, reforçar as aversões que trazem?

Resta-me a consolação de saber que vou fazer o que posso. Para já, olho-os com ternura e sinto-os meus. Meus alunos. E de nenhum desistirei. Obrigo-me a esse privilégio, de que fica este registo.

A ver se sossego.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Cidadania e que mais?

Imagem obtida aqui.

Prolonga-se nos jornais, pela caneta dos mais conhecidos articulistas portugueses, o clamor sobre o "ensino da cidadania” nas escolas. Como de costume, os nossos pensadores teóricos aprofundam um tema e trocam entre si referências favoráveis ou depreciativas, directa ou indirectamente, em simultâneo com a indiferença abúlica que a respectiva matéria merece no quotidiano escolar.

Este apontamento não pretende ser um lamento nem uma crítica sobre a realidade em questão, dentro e fora das escolas. De modo muito resumido, e porque o tema permanece, com alguma exaltação, na agenda social das elites jornalísticas, pretende apenas deixar registo de que a cidadania não é tanto uma matéria que se ensina, mas mais algo que se pratica, sujeito a princípios, critérios e consequências, por forma a dar-se o exemplo a crianças e jovens. E depois de se dar o exemplo, certos comportamentos de cidadania devem ser exigidos em conformidade.

Naturalmente, no que respeita a sentimentos e intimidade, à família cabe, por direito, o primeiro papel, e não deve a escola intrometer-se indevidamente naquilo em que a diversidade de opiniões entre professores e entre os cidadãos redunda facilmente em conflito, particularmente quando choca com a vontade legítima dos pais ou outros encarregados de educação. Dito isto, tem que salvaguardar-se, obviamente, a aprendizagem dos conteúdos históricos e científicos que a escola não pode (fingir) ignorar.

A fim de que a acção da escola não se descredibilize no mesmo grau e de modo similar ao que acontece no exercício da política e da governação em tantos países e lugares, até surgirem, por eleição democrática (eventualmente sujeita a batota), líderes que envergonham (ou deviam envergonhar) a evolução das sociedades. Porque me parece que estas coisas estão relacionadas. 

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Olá, simplesmente

Forma inadequada de cumprimento.
Fonte da imagem: aqui.

Recomeçaram as aulas. As condições físicas das escolas, sobretudo o espaço entre os alunos no interior das salas e as (im)possibilidades do indispensável arejamento nos dias frios ou chuvosos, deixam (muito) a desejar e causam receio. O estado de saúde de muitos professores, especialmente daqueles que às mazelas somam o peso da idade, preocupa. Assim mesmo, não podíamos não voltar às aulas presenciais, necessárias para todos os alunos, especialmente para os menos providos de meios tecnológicos próprios.

Há dias, entre as múltiplas medidas preventivas recomendadas, que uma enfermeira ia relembrando aos professores, em reunião havida para esse e outros efeitos, constava a dos cumprimentos entre as pessoas. À dúvida pertinente de uma professora, sobre se não era inadequado recomendar que se tussa ou espirre colocando a dobra entre braço e antebraço a servir de escudo e depois usar o toque de cotovelos para fazer saudações, hesitou a técnica de saúde, aparentemente surpreendida, antes de sugerir o que parece ser comum entre os alunos – dar um toque com as partes antero-exteriores dos pés. Fraca medida, em meu entendimento, principalmente para pessoas que, além de deverem manter-se a conveniente distância, já quase precisam de usar bengala. Outros modos de cumprimentar recorrem agora ao (deselegante) toque entre punhos, com a parte exterior dos dedos fechados. Não vejo vantagem no procedimento.

Porque não recomendar a saudação por voz, à conveniente distância física, com um simples “olá” ou “bom-dia” ou “boa-tarde” ou “boa-noite” ou outra expressão apropriada? E reservamos os beijos, os apertos de mão e os abraços para os casos em que podemos dá-los ou para quando viermos a poder.

Olá, a todos.

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Preservação das pegadas de dinossauro de Pego Longo (Carenque) – exigência de cidadania que é obrigação de todos e particularmente das comunidades escolares

Fonte da imagem: aqui.
O departamento de ciências experimentais do ensino secundário do Agrupamento de Escolas Carlos Amarante - Braga, formado pelos professores dos grupos disciplinares de biologia e geologia e de física e química, aprovou hoje uma proposta de tratamento do tema em epígrafe, na área disciplinar de Cidadania e Desenvolvimento, no âmbito das «Instituições e participação democrática», do «Desenvolvimento sustentável» e da «Educação ambiental».
Foram aventadas várias hipóteses de acção, com o necessário envolvimento dos alunos, num tema que está na ordem do dia e que foi recentemente submetido, sob a forma de providência cautelar, à apreciação do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra, que já a aceitou. É primeiro proponente dessa providência cautelar o Professor Galopim de Carvalho.
Pretendem os professores que o assunto seja divulgado o mais possível junto dos cidadãos e dos jovens alunos das escolas, para que se salvaguarde um património classificado como Monumento Natural (Decreto-Lei nº 19/97, de 05 de Maio), na sequência da acção de especialistas de topo em termos mundiais e depois de se terem gasto cerca de 8 milhões de euros na abertura dos túneis de Carenque, sob a jazida, e de se ter projectado um centro interpretativo e um museu para o local, que ainda aguardam no papel.
Dadas as condições sanitárias e financeiras em que o país se encontra, os proponentes da providência cautelar apenas pretendem, no imediato, que a lixeira em que o local se tornou, com crescimento de vegetação à mistura, seja objecto de limpeza, de modo a conservar a camada calcária de 10-15 cm de espessura que contém as pegadas, a qual é bastante frágil, por assentar sobre outra, que, apesar de mais espessa, é de natureza argilosa. Ao longo dos últimos 20 anos, as entidades legalmente responsáveis: A Câmara Municipal de Sintra e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas deixaram aquele importante património ao abandono, em risco de destruição, até hoje.
É intenção dos professores do departamento de ciências experimentais do Agrupamento de Escolas Carlos Amarante apelar ao envolvimento de outras escolas, tantas quantas for possível, de modo a criar um movimento que não deixe cair o assunto no esquecimento, usando as redes sociais e os órgãos de comunicação, e que, se possível, (se) tente levá-lo até à Assembleia da República, solicitando a intervenção dos partidos. Está em causa a preservação de um bem muito importante (de que muitos políticos não terão a exacta noção) que não nos pertence, que não podemos delapidar e para a conservação do qual não são necessárias somas significativas de dinheiro.
Todos os esforços e acções são essenciais, ainda que pareçam pequenos e poucos significativos.
Precisa-se das sugestões e da ajuda de todas as pessoas de boa vontade, a quem antecipadamente se deixa um grande obrigado.

José Batista d’Ascenção 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O privilégio do retorno à escola

Foi hoje, ao primeiro tempo. Vários colegas fizeram-no como eu. Alguns tinham serviço de exames. Ali nos encontrámos, cada um atrás da máscara de comportamento social que, afinal, sempre "afivelamos”, mas agora com outra sobre essa, bem real, física e, dentro de dias, incomodativa, principalmente se fizer calor.
Nos dois últimos anos tive uma sorte imensa (apenas sorte, porque nada fiz para isso) com os alunos das minhas turmas: bem-educados, cordatos, simpáticos, genericamente trabalhadores e humildes no proceder, como eu aprecio. Tenho saudades da miudagem, que cresce e fica mais madura e adulta e vai à sua vida.
Este ano vou ter novos alunos.
Como espero e desejo, trabalharei para os ensinar e ajudar a crescer. Isto é um compromisso, sejam quais forem as condições. Conto saber ser digno dos meus novos alunos e da profissão que um dia quis abraçar. E de que nunca me arrependi.
“Boas entradas” para eles, quem quer que sejam, e para mim e para todos os professores e alunos e funcionários da minha escola e de todas as escolas do país.
Adiante iremos.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 28 de julho de 2020

Uma escola amiga das árvores

Estas e outras árvores frondosas envolvem uma escola
 de grande dimensão - A Escola Secundária Alberto Sampaio
Há anos que ando para escrever isto: A Escola Secundária Alberto Sampaio, em Braga, é uma escola verdadeiramente amiga das árvores. Outras – não tantas como seria desejável – o são também, é verdade, mas a “Alberto Sampaio” é-o mais que todas as que conheço.
Aquando da remodelação física das escolas, no início da década, os seus professores, julgo que por acção particular dos de biologia e geologia, empenharam-se em exigir que as árvores não fossem derrubadas. E conseguiram. E plantaram ou semearam mais. Desde então, os espaços com plantas, confinados no interior dos edifícios ou no exterior deles, estão muito bem (talvez se deva dizer: carinhosamente) cuidados.
Nesta matéria, a “Alberto Sampaio” é uma lição efectiva para os alunos e, por extensão, para toda a comunidade educativa, para as outras escolas, para os bracarenses em geral e, tomara eu, para o executivo da Câmara Municipal, especialmente nas áreas do urbanismo e do ambiente. Por maioria de razão, podia também ser um exemplo para o país, se o país conseguisse ver e valorizasse o que se faz de bem nas (suas) escolas.
Pelo que, com um sentimentozinho de “inveja”, publicamente felicito e agradeço.

Nota: Sei que há outras valências muito acarinhadas e com bom desempenho na Escola Secundária Alberto Sampaio. Neste apontamento limitei-me ao que se me impõe, repetidamente, quando ali vou levantar e entregar provas de exame. 

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Exames nacionais (especificamente o de biologia e geologia) – caricatura ou retrato?

Quando, na tarde do passado dia dezassete deste mês de Julho, me pus a resolver a prova de biologia e geologia, senti que estava perante uma caricatura de exame:
- pelo carácter desconcertante de algumas perguntas (a que agora se chama itens);
- pelo grande número de questões que podem ou não contar para a classificação final da prova, consoante as cotações obtidas (sendo consideradas as mais altas);
- pelo facto de todas as respostas a todas as questões valerem o mesmo (oito pontos), sejam de opção, de resposta curta (ou curtíssima) ou de (algum) desenvolvimento;
- pelos critérios de classificação estipulados para algumas das respostas.
Um exame assim não avalia o mesmo em todos os alunos e não é coerente com os exames (também eles sofríveis, por razões diferentes, na maior parte dos casos) realizados em anos anteriores.
E ressalta um aspecto (tristemente) notável: a pandemia do novo coronavírus foi um factor de sucesso (como admiti aqui), pois que:
- fez com que as classificações internas das escolas não baixassem ou sofressem mesmo algum acréscimo;
- elevou as «notas» de exame (pelo menos as do exame de biologia e geologia, a avaliar pela opinião de professores que estão a “corrigir”).
Donde resulta que:
- tendo-se ensinado menos, porque em piores condições, face aos constrangimentos havidos;
- e tendo os alunos sido afectados na aprendizagem, pelas mesmas razões;
afinal, os resultados serão… melhores!
Em consequência, afigura-se-me que as classificações do exame de biologia e geologia da primeira fase de 2020, são um retrato exactíssimo do estado a que o ensino chegou.
Coerentemente, em Setembro haverá mais.
Com que credibilidade?

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Exames nacionais e ortografia

Imagem obtida aqui.
Não é prática minha (nem aprecio) a exibição de erros dos alunos, por acreditar que tem muito mais valor pedagógico a exploração de tudo aquilo que fazem bem. Porém, o abandalhamento das regras da gramática e da ortografia, que impede que muitos compreendam o que lhes é dito e o que (em certas situações) são obrigados a ler, não me permite ficar indiferente à quantidade e ao teor de erros que detectei em metade das menos de três dezenas de exames (de biologia e geologia) que fui chamado a “corrigir”. Erros da mesma natureza em palavras da mesma família li-os em provas de alunos diferentes. Alguns erros são comuns a vários alunos. Não assinalei as falhas (muitas) de acentuação de palavras, que não poucos alunos desprezam. Antiquadamente (e inutilmente) sublinhei a vermelho os erros de que me apercebi, mas é quase certo que não o terei feito em todos os casos, tantos eles são. Eis aqueles de que me lembro, por ordem alfabética:

Abituam-se (habituam-se)
Agreciva (agressiva)
Ascenção (ascensão)
Boracos (buracos)
Bromitol (bromotimol)
Casou (causou)
Conclui-o (concluo)
Devesse (deve-se)
Dissipa-se (dissipasse)
Enfrantar (enfrentar)
Erudiu (erodiu)
Erusiva (erosiva)
Estam (estão)
Experência (experiência)
Explusiva (explosiva)
Extenção (extensão)
Fize-se (fizesse)
Hestorial (historial)
Hidrogenocarboneto (hidrogenocarbonato)
Houveram trocas (houve trocas)
Iram fazer (irão fazer)
Irá-se (ir-se-á)
Obcuridade (obscuridade)
Ocorreu diversas… (ocorreram diversas…)
Ouve (houve)
Ouve-se (houvesse)
Passa-se (passasse)
Percipitam (precipitam)
Planice (planície)
Pusturas (posturas)
Se deposita-sem (depositassem)
Teram (terão)
Tranvertino (travertino

Também não atendi ao desprezo tornado comum (nas redes sociais, na TV, nos jornais e... nas escolas!) pelas preposições, nem à incongruência de certas frases do tipo “uma placa tectónica mergulhar sobre outra”.
O próprio enunciado de exame leva longe demais as tendências fomentadas pelo chamado «novo acordo ortográfico» quando escreve «zonas de subdução» (página 12), com prejuízo imediato da correcção fonética. Admito “evoluções” subsequentes do termo, receando que passe (também) a ser grafado com “ésse” dobrado. Por mim, continuarei a escrever e a pronunciar “subducção”.
Pensamos com a língua em que nos expressamos, suponho.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Trump e nós

Hoje, no jornal «Público» (página 9 da versão em papel), Santana Castilhho, escreve:


«Um Trump qualquer apreciaria muito este Ministério da Educação, pela regressão mental que promove, transformando aulas em entretenimento e exames em charadas de cruzinhas. Aconselhar injecções de lixívia para curar a covid-19, ou usá-la para branquear os resultados da “flexibilidade curricular” e das ”aprendizagens significativas”, [creio que se refere às designadas "aprendizagens esseciais"] equivalem-se no disparate.»



Infelizmente, não me resta outra possibilidade que não seja a concordância.

José Batista d'Ascenção

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O «sistema educativo» bipolar, que (sabe que) ensina mal, mas tenta lavar a cara aplicando afanosamente o verniz de rigor dos questionários do iave

Imagem obtida através da Google.
Com a indicação de «esgotado», aqui.
Desde meados de Março, a escola básica e secundária funcionou nas condições que conhecemos, com (muito) mais deficiências (ainda) do que anteriormente. A escola não presencial, de professores e alunos, simplesmente, não é escola nenhuma, o que não impede, naturalmente, formas eficazes de aprendizagem à distância, em certos casos, cumpridos que sejam os requisitos necessários: espaços adequados nas habitações, dispositivos tecnológicos capazes, bom ambiente afectivo nas famílias, competência digital de professores e alunos, pelo menos. Essas condições, sabemo-lo bem demais, não contemplam um enorme conjunto de alunos e a totalidade dos docentes. Por tais razões, improvisou-se o que se pôde, com boa vontade e generosidade, mas longe da eficácia que todos desejariam.
Terminadas as aulas e feita a avaliação interna das escolas, os resultados afixados aparentemente não traduzem descidas apreciáveis, quem sabe se porque automaticamente se consideraram as dificuldades sentidas como estímulo para «compensar» as classificações. Nessa medida, será curioso apurar se os resultados quantitativos, em si mesmos, não serão mesmo superiores aos dos anos imediatamente anteriores. Note-se que não se faz aqui qualquer defesa da penalização dos alunos. O que se quer realçar é a justeza da medida com que se avaliam as aprendizagens e, concretamente, escrutinar se, quando, com toda a probabilidade, se aprendeu menos e pior, as «notas» obtidas foram, afinal, «melhores». Tem interesse este aspecto porque faz luz sobre o papel da escola e o modo como ela mesma avalia esse papel, do ponto de vista daqueles que lhe exigem a obrigação estrita de fazer com que os alunos aprendam. Claro que há outras visões da escola. Legítimas, aliás. Porém, se os alunos não souberem nem forem capacitados, a escola, verdadeiramente, engana-os e trai a nobreza dos seus objectivos.
Os exames, bem feitos, obedecendo a programas também eles bem feitos, em respeito pelo trabalho dos alunos e dos professores, deviam ser algo de desejável, como medida externa imparcial das «aprendizagens essenciais». Em algumas disciplinas, como biologia e geologia, os questionários do iave (na sequência dos do gave) têm sido pouco perfeitos e não coerentes entre si ao longo dos anos, no grau de dificuldade e nos consequentes resultados. Este é um problema que não tem sido considerado e, por isso, continua por resolver.
No final deste ano lectivo, foi importante (a meu ver) termos regressado às aulas presenciais em disciplinas «nucleares», como se fez, na tentativa de conseguir alguma «normalidade» e como ensaio para o ano lectivo próximo. Mas os exames deviam ter sido suspensos. Far-se-iam quando fosse oportuno. E dispensar-se-iam definitivamente, nos casos em que as universidades se disponibilizassem para seleccionar os seus alunos, como deveria ser.
Nesta altura, improvisa-se o lançamento do novo ano lectivo com base na ideia clássica: exija-se aos professores e eles que se desembaracem.
O que eles, mais ou menos exaustos e envelhecidos, farão com diligência, embaraçando-se progressivamente nos desenrascanços do costume, com os resultados que mascararemos de algum modo, como também é habitual.
E temos ainda a vantagem de sabermos já quem são os culpados do que vai correr mal.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Ou matamos a burocracia ou matamos os professores e a escola

Imagem obtida via «google»: aqui.
Terminaram as reuniões de avaliação dos conselhos de turma de final do ano lectivo. O estado anímico e físico dos professores, particularmente dos que desempenham as funções de directores de turma, é preocupante.
As exigências, os requisitos e os procedimentos, traduzidos em grelhas, tabelas, gráficos ou planos, para além de justificações, apreciações e recomendações compõem um quadro desanimador, de consequências nefastas. E acumulativas. E para quê? Não poucas vezes para forçar estatísticas (de trazer por casa) que traduzam (a ilusão de) algum sucesso.
As escolas não têm, na realidade, qualquer autonomia. Os conselhos pedagógicos são uma espécie de comissões de burocracia, que os directores de turma aplicam e propagam. As direcções e toda a orgânica das escolas, professores incluídos, estão sujeitas à mesma engrenagem trituradora, habitualmente imposta mediante plataformas digitais. E os alunos não aprendem mais por isso.
Uma das razões por que as escolas privadas conseguem melhores resultados em exames deriva do treino intensivo dos alunos, o qual só é possível se as energias não se consumirem em projectos artificiais como são quase sempre os de sexualidade e de cidadania, por exemplo. Como se uma coisa e outra merecessem alguma preponderância especial, para além da normalidade que justificam.
Na voz lúcida do Professor Galopim de Carvalho, «os professores estão sobrecarregados com tarefas administrativas e outras de que deveriam estar rigorosamente libertos.» Fá-lo brilhantemente aqui, e não só defendendo os direitos dos professores como apontando as suas obrigações. Não conheço sobre a matéria palavras mais sábias nem mais sérias nem mais justas.
Depois, claro, haverá sempre uns «rankings» para mostrar como a «escola pública» cumpre mal a sua função.
E cumpre, infelizmente. Mas não apenas por culpa sua.

José Batista d’Ascenção

sábado, 27 de junho de 2020

Ainda sobre «rankings»: Por que é que não foram publicados no Outono passado e o são agora?


Capa do suplemento especial do jornal
 «Público» de 27 de Junho de 2020 
Os ordenamentos de escolas com base nos resultados de (alguns) exames publicados nos jornais portugueses desde 2001 não podiam traduzir seriamente a qualidade dos professores e das escolas por motivos (bem) fundamentados. Elucidativo, sobre essa matéria, é o artigo intitulado «Rankings, esse território de basbaques e pavões», da autoria do Professor Alberto Amaral, na página 15 do jornal «Público» (versão em papel) de 23 de Setembro de 2019.
Tais ordenamentos de escolas saíram agora, no final do ano lectivo, antes da realização dos exames que estão próximos. Que razões específicas há ou houve para a mudança, não sei. Mas existem, seguramente.
No «Público» de hoje, o director Manuel Carvalho escreve, em editorial, que «os rankings não servem para criar hierarquias de escolas no sistema, mas antes para as subtrair a uma espécie de condenação natural.» Não percebo como pode sustentar tal opinião. 
Claro que um dos problemas sérios destes ordenamentos traduziu-se na desqualificação artificial da escola pública e na promoção da escola privada.
Certo que um jornal como o «Público» sempre procurou enquadrar os resultados publicados e trazer à discussão a opinião de intervenientes (professores, alunos) e especialistas na análise da matéria.
O que não anula o «erro» de base e as suas consequências.

José Batista d’Ascenção

Melhor escola da Europa a ensinar Ciência desconsiderada nos «rankings».

Os «rankings» com base nos exames nacionais, «despromovem» a Escola Secundária de Alcanena, que, no fim do Verão passado, foi a mais bem classificada entre mil pela União Europeia
Capa do jornal «Público» de 17 de Setembro 2019
No dia 17 de Setembro de 2019, o jornal «Público» titulava a toda a largura no topo da página 18: «Escola de Alcanena é a melhor da Europa a ensinar Ciência». Em sub-título, escrevia-se: «Desde o pré-escolar que os alunos contactam com esta área e a das Tecnologias e chegam ao secundário a fazer investigação em parceria com universidades. Trabalho foi premiado por rede europeia.» Esta notícia tem chamada na capa, na parte mais visível, à direita. No seu desenvolvimento pode ler-se: «Entre as mais de 1000 escolas envolvidas, a de Alcanena foi a mais bem classificada».
Um feito, portanto.
Ora, em ordenamento do jornal «Público» de 27 de Junho de 2020, a Escola Secundária de Alcanena (ESA) surge no lugar 124º do «ranking de exames». Se especificarmos para as disciplinas de ciências, temos:
Matemática A – posição 272;
Física e Química A – posição 135;
Biologia e Geologia – posição 43.
Assim, em termos globais, de acordo com o ordenamento do «Público», há mais de uma centena de escolas secundárias em Portugal ainda melhores do que a de Alcanena, e por isso o ensino em Portugal devia estar muito bem.
Mas há, obviamente, outras possibilidades, entre as quais:
i) O prémio atribuído internacionalmente não ter sido consistente e poder ter havido algum erro de apuramento;
ii) Os exames nacionais (que têm sido feitos) não medirem as reais capacidades dos alunos [objectivamente, as provas de exame de algumas disciplinas nem sempre respeitam ou contrariam mesmo as orientações específicas taxativas dos programas, como tem acontecido no caso da disciplina de biologia e geologia];
iii) Os «rankings» feitos apenas com base em exames poderem ser artificiais e injustos.
Como não é crível que a primeira hipótese seja verosímil, dado que envolveu uma rede de muitos estabelecimentos de ensino ligados a universidades, num projecto («STEM School Label») que aposta no ensino das «Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática» (STEM), restam as outras duas, sendo que, nas condições formuladas, a terceira possibilidade é afectada pela segunda, por razões óbvias.
Assim, convinha que os jornais explicassem muito bem, como o «Público», de resto, se tem esforçado por fazer, estas desconformidades objectivas dos «rankings», os quais, em termos gerais, se têm traduzido numa degradação da imagem da «escola pública».
Pela minha parte, não tenho dúvidas de que o prémio europeu da Escola Secundária de Alcanena deve ser inteiramente merecido.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Últimas aulas do ano lectivo

Imagem de arquivo
Custam(-me) sempre, as despedidas.
Hoje, de manhã, à distância, e de tarde, presencialmente, perante os alunos que acompanhei durante o décimo e o décimo primeiro anos, confessei(-lhes) que, se o aluno fora eu, e tivesse um professor que nunca faltou, e que nem se lembra de ter chegado atrasado a qualquer aula durante os dois anos, e que logo que o confinamento foi levantado, voltou a correr para a escola, a que chegava largos minutos antes da hora, consequência de uma vontade inexplicável de dar aulas reais, confessei(-lhes), repito, que talvez desejasse profundamente que um grande elefante caísse em cima de tal professor.
Sorriram e disseram que não, acrescentando palavras simpáticas, que não retive.
Deixaram de ser meus alunos (ou talvez ainda não, pela minha parte…), e hão-de seguir pela vida fora.
Enchi o peito e desejei-lhes felicidades.
Que mais pode um professor dizer?

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 22 de junho de 2020

O que pode a tecnologia, desde que…

Fonte da imagem: aqui.
Nos últimos dias (ou noites) fiquei impressionado com o número de satélites (pretende-se que sejam dezenas de milhar) que uma empresa de Elon Musk está a colocar em órbita.
Lançados a partir de «foguetes», os «comboios» de satélites seguem a alta velocidade, alinhados e a tremeluzir, em espectáculo digno de ser apreciado.
Pese embora a perturbação que podem causar por outros motivos (designadamente as interferências nas observações dos astrónomos), e sabendo nós que hão-de acabar como lixo a enxamear o espaço, o objectivo de proporcionar acesso à rede de internet em todo o mundo é deveras louvável.

E então pode dar-se o facto maravilhoso de eu (poder) usar uma aula das minhas para que, com pouca e barata tecnologia, alguém de vasta sabedoria e generosidade, me ajude a ensinar os meus alunos. Aconteceu esta tarde numa videoconferência feita pelo Professor Galopim de Carvalho sobre “magmatismo e vulcanologia”.

Milagres da tecnologia, claro. Ainda assim subordinados à boa vontade de quem põe o seu tempo e os seus conhecimentos ao serviço da comunidade, designadamente dos jovens estudantes.
São infinitos, o meu apreço e a minha gratidão.

José Batista d’Ascenção 

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Parabéns aos professores da Madeira

Imagem obtida via «google»
Esta manhã arranjei tempo para assistir a duas aulas de biologia-geologia, uma de décimo e outra de décimo primeiro ano, através da RTPMadeira. Eram as últimas do plano estabelecido. Tinha assistido a outras. E aulas houve, de outras matérias (por exemplo de economia, assunto em que sou um zero), a que me apeteceu assistir.
Na minha disciplina, as professoras das aulas que acompanhei (Lucília Serralha, Carmo Jardim e Irene Alves) foram sóbrias e incisivas, serenas e seguras (isto só aparentemente contradiz o que escrevi aqui, porquanto um erro que é oficialmente recomendado durante décadas, responsabiliza em primeiro lugar a «hierarquia» que continua a recomendar que se cometa). A mestra encarregada da matéria de biologia de décimo ano despachou os assuntos a uma velocidade extraordinária, mas sem «notas» fora do «tom» e reconhecendo o facto, no final, que resumiu à necessidade de ser assim. A culpa não lhe cabe.
Apreciei a forma sentida (e nalguns casos emocionada, mas sempre elegante e contida) como vi alguns professores despedirem-se, findo o trabalho que foram chamados a realizar.
Também gostei muito da publicidade institucional (mais conselhos úteis e claros, por exemplo sobre segurança na «internet») passada nos intervalos. Por comparação, tive pena que os canais de televisão pública do continente, pagos com o dinheiro dos contribuintes, sirvam tão mal os cidadãos.
Pelo que vi, ficou-me a sensação de que os professores da Madeira e a RTPM prestaram um serviço decente.
Apraz-me a ideia de que outros, de outras áreas, tenham ficado com a minha impressão. Muito o desejo.
Parabéns.

José Batista d’Ascenção

domingo, 24 de maio de 2020

E se ensinássemos os alunos do «ensino regular» (ao nível do secundário) para eles saberem e não para obterem uma «nota», qual «gazua» de acesso aos cursos mais pretendidos do ensino superior?

Exames nacionais: a escola e os alunos não são [o] problema. Aqui.
Mil vezes terei repetido: sou a favor dos exames. Mil vezes voltarei a repetir: desde que respeitadores do trabalho dos alunos e do esforço digno dos professores que os ensinam. Dito de outro modo: as provas de exame devem ser elaboradas em conformidade com os programas das respectivas disciplinas, mesmo quando esses programas não são perfeitos. Claro que, quando os programas são questionáveis, então carecem de ser analisados e modificados, porquanto não é possível aferir com equidade a qualidade das aprendizagens se não houver um normativo que defina os conteúdos a aprender e balize a profundidade e extensão que devem abarcar.
Na disciplina de biologia e geologia do ensino secundário conjugam-se vários males de diferentes origens e natureza, entre os quais: a falta de actualização, de sequenciação e de articulação, sobretudo do programa de biologia de 10º ano, problema que se arrasta desde a sua homologação em 2001; questionários de exame (do GAVE, primeiro, e depois, e até agora, do IAVE) discutíveis em termos científicos, técnicos e pedagógicos; autonomia e responsabilidade pedagógica dos professores limitada ao cumprimento obrigatório das orientações que recebem, as quais acabam por traduzir-se em treinar/amestrar impenitentemente os alunos (o que satisfaz indirectamente outros interesses) para as charadas (mais) típicas dos testes nacionais.
Trabalhar fora destes azimutes pode prejudicar as «performances» dos alunos. Saber é importante, mas pode não ser a chave perfeita para abrir as portas pretendidas…
Imagine-se agora que as instituições do ensino superior passavam a seleccionar os seus alunos. Com os meios técnicos de que dispõem, isso não constituiria dificuldade de monta. E então, os alunos do ensino secundário, para acederem a um curso superior, teriam que saber a matéria respeitante. Logo, a sua preocupação talvez passasse a ser prepararem-se convenientemente e não obterem uma "nota" que cubra eventuais descidas em exame. E os professores do ensino secundário, livres de pressões mais ou menos insidiosas, sob a invocação do "direito ao sucesso", poderiam focar-se na aprendizagem efectiva dos seus alunos. A inflação de notas, que (finalmente!) preocupa o senhor ministro, ficava também resolvida. E a substância da competição entre as escolas também se alterava, por/para motivos saudáveis. 
Não resolv(er)ia tudo, mas mudava muita coisa para melhor.

José Batista d’Ascenção