sábado, 29 de novembro de 2025

O país há 50 anos

(Excerto de artigo de António Barreto, no jornal «Público» de hoje)

«Nos anos 1960, quando eu era um jovem […], mais de metade dos portugueses e das suas famílias não tinha em casa água corrente, nem electricidade, telefone, aquecimento ou sanitários. Mais de um terço não sabia ler e escrever, nunca tinha lido uma carta de amor, nunca tinha escrito um bilhete postal nem assinado um documento. Mais de um terço dos portugueses viviam no campo, trabalhavam na agricultura, nas florestas e nas minas e tinham verdadeiros salários de miséria. E a grande maioria dos cidadãos não podia dizer o que pensava, não tinha o direito de se exprimir ou de se associar, não podia ler os jornais nem ver os filmes que quisesse. As mulheres não tinham o direito de escolher algumas profissões, não podiam abrir contas bancárias, não conseguiam alugar uma casa ou iniciar um comércio, nem sequer ter um passaporte sem a autorização do marido. Muito longe dos outros europeus, os portugueses tinham a mais alta mortalidade infantil e a mais baixa esperança de vida. Eram tempos de pobreza. Eram tempos sem liberdades. Tudo isto, muito disto mudou. Hoje, o nosso país é incomparavelmente melhor do que há 50 anos.»

Factualmente.






Afixado por José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Degenerescência do exercício juvenil da democracia

Ontem, na escola, à hora a que me dirigia aos serviços de reprografia, quando ia atravessar a sala dos alunos, vi-me impossibilitado de o fazer porque os jovens estavam à cunha naquele espaço. O barulho, esse era ensurdecedor.

Já no (simples e bonito) gradeamento do quarteirão que a escola ocupa, pendurada para o lado da rua, abundava extensa farrapada, com expressões vagas…

Um antigo professor da escola, que circulava por ali, interrogou-me sobre o que era aquilo. Adiantei que o motivo justificativo (ou o pretexto) seria a “campanha” de listas para a Associação de Estudantes.

Impressiona-me que falemos tanto de cidadania e consintamos procedimentos que tais. Felizmente, hoje, o sossego voltou à minha (querida) Escola e as lonas propagandísticas foram removidas. Se foi por acção da Direcção muito me apraz.

Não deixei de comentar os acontecimentos com alunos meus. Perguntei(-lhes) se ficaram elucidados acerca das propostas de acção e sobre as qualidades dos proponentes. Disseram que não e pareceram-me tão incomodados como eu.

Era bom que fôssemos mais exigentes e menos permissivos com arremedos degradantes do exercício da cidadania na(s) escola(s).

As democracias no mundo estão em regressão. À escola devia caber um papel construtivamente preventivo.

De outro modo, acabaremos pior (ainda) do que estamos.

José Batista d’Ascenção

sábado, 1 de novembro de 2025

“Patriotas” que desprezam a língua

Excerto de artigo de Pacheco Pereira, no jornal «Público» de hoje, página 10 da versão impressa:

…« esta deterioração da língua vem de cima para baixo, vem de quem tem poder no topo para terminar nesta cloaca de ressentimento e raiva [que são as redes sociais]. O Acordo Ortográfico de 1990 — a que, felizmente, quem gosta da sua língua e do seu país resiste —, para além de um desastre diplomático, uma nulidade em termos de “unificação” do português — posso, por exemplo, num processador de texto, escolher a opção “português de Angola” —, traduziu-se num abastardamento da língua. Esse abastardamento foi retirar-lhe a memória, eliminando os traços da sua origem no latim. Como disse também Pessoa: “A ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”»

José Batista d’Ascenção