terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sobre as elevadíssimas médias de entrada em alguns cursos universitários

[Este texto não deve ser lido por pessoas sensíveis, que sejam ou tenham sido professores]

Mais de quarenta anos como docente do ensino secundário, não deixo de me espantar com a abundância crescente de médias estratosféricas de entrada em vários cursos universitários. Isto devia ser muito bom. De resto, corresponde a grande aplicação de numerosos alunos, com elevadas capacidades cognitivas, dedicação e boa gestão da sua condição de estudantes. Essas «performances», como agora se diz, são também fruto do acompanhamento dos pais e da despesa que (muitos) fazem em explicadores (que chegam a ser mais do que um na mesma disciplina para o mesmo aluno).

Não se pense que não gosto de ter bons alunos e de os compensar merecidamente. Mas, em minha opinião, não há tantos génios assim no nosso país. Foi por isso, com um misto de tristeza e desconforto que, no final do ano lectivo passado, declarei para uma acta de avaliação do 3º período: …«os alunos com melhor rendimento tendem a expressar o desejo de serem classificados com o máximo da escala. Em termos objetivos, os dados obtidos por qualquer deles não são conformes com tal pretensão. O professor da disciplina lamenta a situação em que se caiu na generalidade das escolas, a qual exige medidas hierárquicas universais para moderar o quadro que se vive. Sem essas medidas, resulta (para si) a contingência ingrata de: ou acompanhar a tendência ou prejudicar, por comparação, os alunos que lhe couberam. São estas as razões por que propôs classificações de 20 valores.»

Tão chocante como isto é o facto de só 3% dos alunos mais pobres terem obtido colocação nas universidades. No tempo do fascismo chegou-se a 4%!

Mas quem me manda a mim incomodar-me com o que não incomoda ninguém?

José Batista d’Ascenção

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