sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A tristeza dos bons alunos

Ando (tão) cheio de bonomia, por estes dias, que até os problemas pessoais e familiares, que não sei resolver, me parecem (por agora) algo esbatidos (talvez porque não quero olhar para eles…).  Mas não são apenas os motivos menos animadores, meus e dos meus próximos, que tento afastar do pensamento, não são.

Para exorcizá-los temporariamente acrescento este registo: terminei as reuniões de avaliação (de alunos do ensino secundário) do 1º período. Pois não é que há vários dos melhores alunos que mergulharam em clima de insatisfação porque, recebidos os teses da 2ª “ronda”, obtiveram notas de dezoito, dezanove ou até mais. Como se os poucos pontos em falta para o limite superior da escala fossem mais importantes do que os muitos que conseguiram!

Pela minha parte, bem lhes disse que não sou um ser humano perfeito, nem um cidadão perfeito nem um professor perfeito (pobre de mim!) e que nunca tive o privilégio, que eu saiba, de ter lidado com alguma pessoa perfeita. Está bem, está: este discurso não fez maravilhas. Nas reuniões de avaliação, as opiniões dos colegas convergiram com as minhas.

A escola caiu na loucura.

Há os meninos - infelizmente muitos - desmotivados, cheios de problemas, que não estudam nem têm rendimento. E há meninos, em número significativo, que parece não aceitarem menos que pautas irreais a abarrotar de classificações de topo. Nem conseguem ver as insuficiências próprias, que, naturalmente, também têm.

Caímos nisto.

Feito o desabafo, vou agora, durante uns dias, concentrar-me no belo e no bom possíveis. Prefiro assim.

Festas felizes.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Recta final do primeiro terço do ano lectivo 2025/26

À sorte sou grato pelos alunos que este ano me couberam. São de 11º e de 12º anos. Já conhecia os primeiros e fiquei a conhecer os segundos.

São meigos, humildes, cordatos, simpáticos e (quase todos) trabalhadores. Farei o que me for (honestamente) possível para que assim se mantenham (ou melhorem o rendimento) até final do ano lectivo, para que, então, possa sentir o triunfo de ter cumprido com sucesso as minhas obrigações profissionais.

Ando, por esta altura, ocupado (“submerso”) na trabalheira da correcção de testes, à bulha, portanto, com as falhas de alguns deles e com possíveis imperfeições das aulas que (lhes) ministrei. É o caminho habitual, não isento de pedras, que sempre as há.

Havia, naturalmente, de arranjar algum momento para registar por escrito o meu desejo/compromisso.

Está feito. 

José Batista d’Ascenção

sábado, 29 de novembro de 2025

O país há 50 anos

(Excerto de artigo de António Barreto, no jornal «Público» de hoje)

«Nos anos 1960, quando eu era um jovem […], mais de metade dos portugueses e das suas famílias não tinha em casa água corrente, nem electricidade, telefone, aquecimento ou sanitários. Mais de um terço não sabia ler e escrever, nunca tinha lido uma carta de amor, nunca tinha escrito um bilhete postal nem assinado um documento. Mais de um terço dos portugueses viviam no campo, trabalhavam na agricultura, nas florestas e nas minas e tinham verdadeiros salários de miséria. E a grande maioria dos cidadãos não podia dizer o que pensava, não tinha o direito de se exprimir ou de se associar, não podia ler os jornais nem ver os filmes que quisesse. As mulheres não tinham o direito de escolher algumas profissões, não podiam abrir contas bancárias, não conseguiam alugar uma casa ou iniciar um comércio, nem sequer ter um passaporte sem a autorização do marido. Muito longe dos outros europeus, os portugueses tinham a mais alta mortalidade infantil e a mais baixa esperança de vida. Eram tempos de pobreza. Eram tempos sem liberdades. Tudo isto, muito disto mudou. Hoje, o nosso país é incomparavelmente melhor do que há 50 anos.»

Factualmente.






Afixado por José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Degenerescência do exercício juvenil da democracia

Ontem, na escola, à hora a que me dirigia aos serviços de reprografia, quando ia atravessar a sala dos alunos, vi-me impossibilitado de o fazer porque os jovens estavam à cunha naquele espaço. O barulho, esse era ensurdecedor.

Já no (simples e bonito) gradeamento do quarteirão que a escola ocupa, pendurada para o lado da rua, abundava extensa farrapada, com expressões vagas…

Um antigo professor da escola, que circulava por ali, interrogou-me sobre o que era aquilo. Adiantei que o motivo justificativo (ou o pretexto) seria a “campanha” de listas para a Associação de Estudantes.

Impressiona-me que falemos tanto de cidadania e consintamos procedimentos que tais. Felizmente, hoje, o sossego voltou à minha (querida) Escola e as lonas propagandísticas foram removidas. Se foi por acção da Direcção muito me apraz.

Não deixei de comentar os acontecimentos com alunos meus. Perguntei(-lhes) se ficaram elucidados acerca das propostas de acção e sobre as qualidades dos proponentes. Disseram que não e pareceram-me tão incomodados como eu.

Era bom que fôssemos mais exigentes e menos permissivos com arremedos degradantes do exercício da cidadania na(s) escola(s).

As democracias no mundo estão em regressão. À escola devia caber um papel construtivamente preventivo.

De outro modo, acabaremos pior (ainda) do que estamos.

José Batista d’Ascenção

sábado, 1 de novembro de 2025

“Patriotas” que desprezam a língua

Excerto de artigo de Pacheco Pereira, no jornal «Público» de hoje, página 10 da versão impressa:

…« esta deterioração da língua vem de cima para baixo, vem de quem tem poder no topo para terminar nesta cloaca de ressentimento e raiva [que são as redes sociais]. O Acordo Ortográfico de 1990 — a que, felizmente, quem gosta da sua língua e do seu país resiste —, para além de um desastre diplomático, uma nulidade em termos de “unificação” do português — posso, por exemplo, num processador de texto, escolher a opção “português de Angola” —, traduziu-se num abastardamento da língua. Esse abastardamento foi retirar-lhe a memória, eliminando os traços da sua origem no latim. Como disse também Pessoa: “A ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”»

José Batista d’Ascenção

sábado, 25 de outubro de 2025

Quando os alunos gostam

Faz-se, aprende-se. Aprender sem fazer é conhecimento fragilmente ancorado.

Os meus meninos de 11º ano, deste ano, sabem (agora) bem as fases da divisão celular em que uma célula origina duas geneticamente iguais entre si e iguais à célula de que se formaram.

Sabem porque viram. Sabem porque olharam para as células a dividir-se. O procedimento prático é (aparentemente) simples, mas esbarra frequentemente com frustrações significativas e marcantes. Aconteceu-nos há pouco mais de oito dias: as cebolas que usámos, adquiridas no supermercado, de que queríamos obter os ápices das raízes em crescimento, praticamente não germinaram, após 72 horas a tocar com a base dos bolbos na superfície da água de um copo. Inibidores da germinação usados pelos comerciantes devem ter sido a razão. Uma decepção.

Vingámo-nos na quarta feira passada. A alternativa foi pedir aos meninos que trouxessem cebolinhas do “produtor” ou “biológicas” como eles lhes chamam. Repetido o processo, agora com experiência acrescida de manuseamento técnico, todas as fases do ciclo celular estavam visíveis em cada um dos seis grupos do turno primeiro e do turno segundo. Foi uma satisfação.

Entusiasmados, alguns quiseram repetir. Agradado, estimulei-os.

De imediato, enviei por eles um recado aos seus pais: «o professor ficou muito contente com todos; se algum encarregado de educação duvidar pode vir confirmá-lo em pessoa.»

E deixei que saíssem com a convicção de que este trabalho era bastante fácil.

Porque, com eles, foi. 

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Renego o que escrevi quando escrevi isto

É lá possível! Mas foi, não há dúvida, logo que me mostraram tive que aceitar. Apetece-me dizer que eu (escrevinhador) não era eu (professor). Publicamente o confesso.




Ora veja-se:




    “Polícia”

Alinhavar palavras num soneto

Enquanto os alunos fazem teste

Quebra-cabeças em que me meto

Para evitar que o vazio me moleste


Eu tão sem nada que fazer…

Tão inútil, nesta sessão de vigilância.

E eles tão aplicados, a sofrer!?

Mais um obstáculo, em percurso de errância…


Desejei que a todos corresse bem

E gostava de vê-los contentes ao sair

Mesmo calculando as dificuldades que têm


Porquê esta prova, fazê-los cair?

É assim que chegarão mais além?

Que termine o exame, vão-se distrair!


    No acto de vigilância, cerca das 10 horas do dia 05/06/1995, na Escola Secundária de Maximinos – Braga.

    Lido como “castigo” aos alunos retardatários na entrega da prova.

    José Batista d’Ascenção