domingo, 28 de janeiro de 2018

Biodiversidade, com belas imagens (fotos) em exposição…

Está aberta à comunidade escolar, na biblioteca da Escola Secundária Carlos Amarante (ESCA), em Braga, uma exposição sobre biodiversidade, sobretudo de aves, com inclusão de exemplares de mamíferos, de anfíbios e de insectos, motivada por uma conferência sobre o aumento da biodiversidade urbana (que tem vindo a registar-se nos tempos recentes), a proferir pelo Professor Doutor Jorge Paiva, amanhã, segunda-feira, dia 29 do mês em curso, às 15 horas, no auditório da ESCA.
As fotografias são, na sua maioria, da autoria do Professor António Carlos (do grupo de Educação Física da ESCA), dinamizador do clube de fotografia da escola, mas também da Professora Graça Borges, do mesmo grupo de Educação Física da nossa Escola e do fotógrafo João Nave. O Professor António Carlos leu e releu artigo competente do Doutor Jorge Paiva e fez-se à procura e ao trabalho, durante meses. O trabalho científico de identificação e nomenclatura coube à Professora Paula Jacinto, de Biologia e Geologia, também da ESCA.
O fotógrafo: Prof. António Carlos
De grande qualidade e rigor documental, todas as fotografias têm interesse técnico, científico, artístico e cultural. Por motivos de limitação do espaço e de estruturas de suporte, muitas outras fotografias, tantas como as que estão expostas, ficaram (ainda) por mostrar. E foi difícil escolher, muito difícil, o que atesta a valia de cada exemplar e de todo o acervo relativo ao tema.
Tendo tomado conhecimento da história de captação de algumas das fotos, nalguns casos obtidas próximo da escola (e noutros não…) soube, por exemplo, que a fotografia de um guarda-rios (Alcedo atthis) foi tirada na foz do rio Cávado, ao fim de uma espera de cerca de três horas, com lodo até aos joelhos e chuva a cair. E quando parecia que todo o tempo tinha sido em vão, surgiu aquela ave magnificamente colorida a posar para a câmara e a resgatar o dia. A prova está ao lado, sendo que é uma fraca fotografia de telefone móvel do quadro exposto, desmerecendo a bonita imagem que está debaixo do vidro acessível aos olhos de qualquer visitante (sem o indesejável reflexo de luz).
O «guarda-rios»
Deleitado fiquei eu em frente a cada uma das molduras, que não me canso de olhar. Por exemplo, a do «alfaiate» (Gerris lacustris) sobre a «toalha líquida» elucida maravilhosamente um facto chamado «tensão superficial» da água devido às suas características moleculares: como a molécula de água (H2O) é constituída por dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio, acontece que, por ter mais carga positiva no núcleo, o átomo de oxigénio puxa mais para si os electrões (diz-se que é mais electronegativo) do que os átomos de hidrogénio (que são menos electronegativos), donde resulta que a distribuição espacial de electrões na molécula é desigual, «adensando» a carga negativa do lado do oxigénio e «aligeirando-a» do lado dos hidrogénios. Então, cada molécula de água, cuja carga total é (obviamente) neutra, funciona como um pequeno íman em relação às que lhe estão próximas, sendo que as diferentes moléculas se atraem pelas zonas de polaridade oposta. Em consequência as moléculas de água apresentam uma certa coesão entre si. Porém, a força de atracção das moléculas à superfície é diferente da força que ocorre entre as moléculas abaixo da superfície, porque aí as moléculas de água são atraídas por outras em todas as direcções e com a mesma força. Como as moléculas à superfície apenas são puxadas por outras ao lado e abaixo, isso causa a contracção superficial do líquido, transformando-o numa espécie de película elástica.
Na foto ao centro: o «alfaiate»
Como o «alfaiate» é leve e tem umas patas longas, as extremidades destas assentam na superfície líquida e empurram-na para baixo, criando depressões («covas»…) muito bem visíveis na foto ao lado. Assim, os «afaiates» não nadam, eles caminham ou correm na superfície da água sem «molhar os pés». E aquelas «covinhas» desfazem-se de imediato, logo que o animal levanta cada uma das extremidades, tal como acontece com as deformidades causadas pelos nossos pés quando, sobre um colchão, os levantamos.
Deliciado fiquei também com a fotografia de uma rã que é uma lição multi-ilustrada sobre o mimetismo relativamente à cor do substrato em que o animal se encontra. Vá ver quem duvide e peça explicação, se não estiver a perceber…
Esta exposição vai permanecer na biblioteca da ESCA o tempo que se justificar. E, como alguém sugeriu no momento da montagem, talvez fosse bom divulgá-la e abri-la a quaisquer interessados e não apenas aos chamados elementos da comunidade educativa. Todos ganhavam.
Um grande obrigado aos fotógrafos, Professores António Carlos e Graça Borges e a João Nave, e à Professora Paula Jacinto.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Um dia diferente na minha escola

Modelos de estrutura da Terra, realizados por alunos
Decorreu ontem o «Dia do Agrupamento de Escolas Carlos Amarante», em Braga. Comemora-se este dia em honra do patrono, na sequência do que já se fazia antes envolvendo apenas a Escola Secundária Calos Amarante, agora a escola-sede. É um dia diferente, em que as aulas se interrompem e as salas e outros espaços se enchem de actividades diversas dirigidas toda a comunidade: aulas abertas, experiências em laboratórios, exposições de trabalhos de alunos, jogos didácticos, projecção de filmes, palestras, concursos, feiras de minerais e de artigos usados, demonstrações de software, de robótica e de electrónica, oficina de mecânica, actividades para crianças de jardins-de-infância e alunos do ensino básico, torneios desportivos e de damas, entre outros. Todas as áreas disciplinares se envolvem e são alunos que estão em cada sala como protagonistas das realizações de demonstração, exposição ou interacção com os visitantes: para além dos mais pequeninos, turmas de alunos do ensino básico de outras escolas do agrupamento ou de escolas vizinhas de outros agrupamentos.
Explicando a morfofisiologia do coração
Faz sempre parte das comemorações de um dia como este a homenagem aos professores e funcionários que se aposentaram no último ano (cada vez em menor número) e a entrega de diplomas de mérito («académico» e/ou «humano») aos alunos que se distinguiram no ano anterior. A Associação de Pais e Encarregados de Educação e a Comissão de Antigos Alunos são entidades sempre envolvidas nas realizações deste dia comemorativo.
Findo o dia, uma boa parte dos professores permaneceu para o jantar, que fechou a jornada. Esta manhã, todos os que se encontravam na escola manifestavam boa disposição e ninguém referiu o trabalho (causador de «cansaço bom») a preparar, a montar, a realizar e a desmontar, sem descurar (muito…) a preparação das aulas e dar seguimento à mais nobre função da escola.
Valeu a pena. E os professores rejuvenescem com tal cansaço porque sentem que é assim e assim deve ser.

Órgãos internos do coelho




















José Batista d’Ascenção

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Ouvir os alunos

Imagem obtida aqui
Já a destempo, releio uma notícia do jornal «Público» de ontem, dia 15, na página 12, sobre o modo como uma escola (do Agrupamento de Escolas de Caneças), discutiu o que chamaram «Dia do Perfil do Aluno» (uma iniciativa promovida pelo Ministério da Educação e pela Federação Nacional de Associações de Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário), no sentido de discutir «o que pode ser feito para fomentar a aquisição de competências que devem orientar a aprendizagem». Esta iniciativa dá curso ao que foi proposto há cerca de um ano por um grupo de trabalho coordenado por Guilherme d'Oliveira Martins.
Segundo a notícia, uma aluna de 12 anos, a frequentar o 7º ano de escolaridade, que beneficia do «regime de flexibilidade curricular que a escola adoptou» refere que aquele regime é «algo que lhe agrada», embora afirme em forma de lamento: «apesar de estarmos sempre em grupos e haver gente que não trabalha…»
A experiência que decorre naquela escola, na opinião de um professor coordenador, revela «já aspectos positivos e negativos» (como não?), mas, segundo diz, «ainda é cedo para avaliar os resultados», sendo que «ainda se nota algum desnorte, tanto para os professores como para os alunos», adiantando que, quanto aos pais, «a maioria acha que faz sentido». Aquele projecto, visto com agrado pela Direcção daquele Agrupamento de Escolas, será para continuar no próximo ano, dando continuidade no 8º ano, e iniciando-o no 10º ano de escolaridade.
Desejo as maiores felicidades.
Na minha escola, que não adoptou aquele regime, não ouvi falar do assunto. Noutras escolas onde também decorre o mesmo projecto-piloto, a discussão havida ter-se-á limitado aos professores coordenadores e a um ou outro agente externo ligado ao processo.
Alguma coisa deve ser feita para melhorar o aproveitamento das crianças e jovens. Pelo meu lado, apenas desejo que não se ficcionem os resultados e que não se sucedam experiências, por norma não devidamente avaliadas, sem que nunca se sedimentem princípios e metodologias e práticas que se revelem fecundos, pelo menos em parte.
Para mim, a organização da sociedade e da escola penalizam sobretudo os filhos das pessoas (mais) pobres, que não podem e/ou não sabem aceder a apoios ou a acções (explicações, livros, museus, viagens…) para compreenderem o funcionamento da natureza e do mundo, nem têm influências sociais, nem heranças materiais que lhes facilitem a vida, em que vão vegetar como deserdados da sorte. Para estes meninos, que em Portugal são, talvez, a maioria, a escola tem deveres acrescidos, a que não pode eximir-se. Mas não é via admissível enganar estes alunos e os seus pais com metodologias que passam por cima do que é fundamental que aprendam ministrando-lhe barrelas facilitistas ou deixando-os à deriva, a fazerem coisa nenhuma, e forçando os professores a avaliá-los com notações positivas, como se tivessem competências que não atingiram. Isso é indigno. Antes a clareza da doença do que a mistificação miserável da cura, com fim trágico.
Na peça jornalística acima citada, uma menina de 12º ano da mesma escola afirma que «aquela iniciativa mostra que os miúdos mais pequenos têm uma voz que pode ser ouvida». Outra aluna defende que “os alunos têm mais a dizer do que as pessoas pensam”.
Não é difícil concordar: a voz dos alunos deve ser escutada, no que dizem e naquilo que nem sequer verbalizam e, muito particularmente, no que expressam e põe a nu as fragilidades, as falhas e, até, a hipocrisia dos adultos, assim como a sua (nossa) cegueira para enxergar coisas óbvias.
Enfim, não sobrou muito daquela notícia. Mas é o suficiente para eu me sentir grato às alunas que emitiram a sua opinião.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O rendimento escolar melhora e o das raparigas é melhor que o dos rapazes

Dados divulgados hoje pelo Ministério da Educação (decorrentes de análise do percurso dos alunos do 3º ciclo e do ensino secundário pela DGEEC) mostram que a percentagem de alunos que nunca reprovaram nenhum ano e que tiveram positiva nos exames nacionais, no ano lectivo passado, aumentou (de 40 para 46% no 9º ano e de 37 para 42% no 12º ano), sendo que as raparigas obtêm melhores resultados do que os rapazes [No 3.º ciclo, a maioria das raparigas (51%) teve um percurso de sucesso contra 41% dos rapazes, e no secundário as mulheres também registaram melhores resultados (47% contra 37% dos homens)]. Outra verificação é que os jovens de famílias carenciadas têm um percurso escolar com mais reprovações. [notícia lida aqui]

Quanto ao aumento do rendimento escolar, saúda-se, por ser bom que assim seja e desejável que  a tendência se mantenha.
Já em relação ao melhor aproveitamento das raparigas face ao dos rapazes, tirando o interesse da quantificação, não há novidade, sabíamo-lo. Os teóricos é que ainda não começaram a sugerir remédios para a situação (o que, tendo em conta o experimentalismo voluntarioso do ensino em Portugal, não é necessariamente mau) e os políticos não sabem o que fazer (e é melhor que não inventem). Há professores que têm algumas ideias para discussão: Adequação e adaptação dos curricula e dos programas? Modificação da sequência de leccionação de certas rubricas programáticas? Exercícios de treino diferentes sobre determinadas matérias? Abordagem diferenciada de alguns conteúdos?... Mas não creio que alguém esteja interessado em ouvi-los.
E sobre as dificuldades maiores dos alunos provenientes de famílias pobres, não era preciso estudo nenhum para concluir que é assim...

José Batista d'Ascenção

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Recomeço das aulas - vencer bem o segundo período

Inicio este segundo período com uma curta reflexão, por enquanto em monólogo interior, e pensando nos meus alunos. Mas derramo-a à vista de todos, para que, esquadrinhando-a, mais se salientem os pontos fracos, que é preciso resolver, e mais me aproxime das soluções a encontrar. Que isto de ter alunos é abraçar uma luta que nunca está ganha, uma porfia em alcançar certa luz que, por mais que se queira, deixa sempre algo no escuro da percepção, do entendimento, da compreensão e do estímulo de que resultam o afecto e a confiança que tornam profícua ou comprometem, às vezes definitivamente, a interacção pedagógica. Se o professor e o(s) aluno(s) não remarem na mesma direcção, com objectivos comuns, é mais ingrato o papel de um e do(s) outro(s) e menos feliz o resultado alcançado.
Os que já atingiram bom rendimento, e, por exemplo, tiveram dezoito ou dezanove (poucos), não inspiram preocupação. Esses alunos sabem o que têm a fazer e, normalmente, fazem-no com gosto ou, pelo menos, com aplicação. O mérito dos resultados depende deles (muitíssimo mais do que do professor, pois que, se não fosse assim, todos, como eles, os teriam alcançado facilmente), pelo que o que há a fazer é optimizar o mais possível o trabalho e as estratégias para manter e, se possível, subir o nível que já alcançaram.
Todos os que obtiveram notas positivas abaixo da excelência devem estar animados, ou para a atingir ou para melhorar a sua prestação tanto quanto lhes for possível. Aqui, a ajuda do professor pode ser muito importante, sendo fundamental que, em nenhuma circunstância, a sua acção se transforme em acréscimo de dificuldade nem, muito menos, em motivo de desânimo. Mas cabe também a cada aluno fazer um esforço para colocar e esclarecer as dúvidas, expondo-as na aula, sem vergonha (motivo de vergonha e de tristeza – ou mesmo de culpa – seria escondê-las, como se fossem crime!), ou vindo às aulas de apoio ou pedindo uma explicação individual ou em grupo restrito, em tempo a agendar, na nossa bela biblioteca, tão bem servida como está de mesas de trabalho, de espaço, de luz e de ambiente.
E há aqueles (felizmente em pequeno número) que (ainda) não atingiram um rendimento positivo. Estes casos, em meu juízo, não se traduzem apenas num fracasso dos próprios. Esse fracasso é também meu. E aquela «nota» de «seis», que causou discordância de uma colega professora no conselho de turma, é também uma «nota de seis» no meu trabalho, que não foi eficaz naquele caso: Porque não entusiasmei aquele aluno? Porque não o despertei para as matérias que ensino? Porque não «acedi» à profundeza das suas dúvidas, das suas dificuldades ou dos seus interesses? Não sei responder a mim próprio. Sei, porém, que há muitíssimas outras variáveis a influenciar a equação que não dependem de mim, o que não invalida que me pese que as minhas explicações e os meus desafios nunca tenham feito brilhar os olhos daquele menino… Naturalmente, estou disponível para trabalhar com ele e com os demais de modo a que melhorem. E as melhoras são possíveis, em meu entendimento. Naquele caso e, por maioria de razão, nos outros. Todo o tempo é tempo. Cá estou, com a disponibilidade de sempre, meus caros. Não receiem. Não hesitem. Ajudem-me a ajudar-vos. O que não gosto é de aldrabar resultados.
A finalizar, e entre parêntesis, confesso: ao longo destes anos todos, fica(-me) a triste impressão de que, para muitos agentes, mais por causa dos gastos, e por outras razões que (a meu ver) não colhem, do que por verdadeira preocupação com a preparação dos alunos, o importante é que todos passem. O caso é que todos os professores, suponho, gostam que os seus alunos aprendam, saibam e… passem! Se, porém, for forçoso obter aprovação em quaisquer circunstâncias, faça quem manda o favor de o assumir e produzam-se leis que estipulem que todos progridem (excepto se os próprios ou os seus encarregados de educação não o desejarem, já agora) independentemente das classificações, que são coisa diferente e necessária. Induzir ou conduzir, por quaisquer meios, os professores à batota é que não – é mau para todos e impossível para alguns.
Fim de parêntesis.
Mas o sentido desta conversa é outro: Temos menos de meio ano para o fim das aulas. E era bom que todos se pudessem divertir tão intensa quanto merecidamente por alturas do S. João.
Ao trabalho, até lá.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Inconveniências pedagógicas em tempo de Natal.

Este é um texto que ninguém deve ler, sob pena de se indispor. Desculpem qualquer coisinha…
Imagem obtida aqui.

Tais estão as coisas que há alunos que encaram a possibilidade de copiar como se fora um direito.
Este ano lectivo dois dos meus alunos ficaram perplexos porque no local da classificação de um teste, tinham uma chamada para uma nota à margem, em que o professor registava a sua falta de confiança na prestação dos alunos em causa e pedia a assinatura dos respectivos encarregados de educação, como prova de que tomavam conhecimento. Essa nota havia sido aposta no cumprimento específico de certo ponto dos critérios de avaliação. O efeito terá sido tão profundo que um dos alunos quis afirmar, de sua iniciativa, perante os restantes, na altura e em ocasião posterior, que dali em diante promete ser honesto quando realizar testes. Pareceu-me tão (comoventemente) sincero em cada uma das vezes, que tive (e tenho) receio de que possa (vir a) ser visto pelos outros como um caso exótico, se não mesmo aberrante.
Também tenho tido, ao longo dos anos, alunos que fazem saber (mais recentemente de forma indirecta…) de modo, nuns casos, discreto e noutros ostensivamente, legitimando a interpretação de que que constitua aviso, chantagem ou vingança, que vão mudar de escola porque querem ter «melhores notas». Não se conhece aluno que diga que vai mudar de escola porque quer aprender mais ou melhor, mas porque quer ter «melhores notas».
Há também casos de alunos que, tendo-se transferido para escolas públicas, no 11º ano, apresentam quedas de classificações que podem ser de 18 para 9 ou de 16 para 8, em disciplinas tão díspares como inglês ou biologia e geologia, em que não é difícil aquilatar com algum rigor e uniformidade o que um aluno sabe ou ignora. Refira-se que não se trata de meros casos pontuais, pelo que não é legítimo que alguém se sinta «retratado» em particular. Nem se pense, também, que o mal que grassa é exclusivo de escolas privadas. Na realidade, a pecha alastra pelas escolas públicas em hipotética (mais imaginária que real?) e infeliz competição (em idas e vindas que anulam os efeitos pretendidos?) pela angariação de alunos.
Ora, compete ao Ministério da Educação e aos serviços de inspecção analisarem a matéria e sobre ela tomarem as decisões que se imponham. E ajudaria que os especialistas que se pronunciam sobre os assuntos do ensino, alguns sendo ex-ministros da pasta, não receassem o tema, fizessem luz sobre o mesmo e possibilitassem as melhores e mais justas soluções. Pela minha parte, sem ser exaustivo, há perguntas que não deixo de colocar:
- Que uniformidade existe (ou que nível de discrepância é aceitável) na avaliação dos alunos do todo nacional, incluindo escolas públicas e privadas, especialmente no ensino secundário, afectando, sobretudo, o acesso ao ensino superior?
- Com que objectivos devem ser elaborados os exames nacionais (pelo menos os da disciplina de biologia e geologia): para avaliar a qualidade das aprendizagens sobre as matérias dos programas ou para garrotar o ingresso em certos cursos do ensino universitário?
- Assegurada a resposta às questões anteriores, e perante tantas estatísticas disponibilizadas, que ilações se tiram e que medidas se tomam face à comparação da média das classificações internas com a média das classificações obtidas em exames nacionais, nos casos exageradamente discrepantes?
- Qual é o grau de eficácia na manutenção do sigilo relativo ao conteúdo dos exames nacionais até ao momento da sua realização?
- Qual é o grau de eficácia no controlo rigoroso das condições de execução dos exames nacionais em todas e em cada uma das escolas?
Se não assegurarmos condições de justiça no sistema educativo não podemos esperar melhor imagem do que aquela que resulta da acção de certos protagonistas da política e da governação, que tratam da sua vidinha, sem que lhes seja aplicada qualquer penalização. Ou de instituições que deviam ser exemplares, sejam as militares (estou a pensar no incrível caso de Tancos), sejam as de (suposta) solidariedade nacional (pense-se no famigerado caso «Raríssimas»). Ou de certas sentenças recentes do sistema de justiça. Ou da acção (até à data) inexistente da «protecção civil» em matéria de prevenção de incêndios florestais. Etc., etc..
Este texto viu a luz do dia depois de ter tomado conhecimento de um conselho de turma em que os representantes dos encarregados de educação se esforçaram «diplomaticamente» para que certo docente (que não é o autor destas linhas) passe a reflectir e ponderar sobre as suas classificações, «atendendo ao contexto, ao que se passa a nível nacional e à circunstância de um simples ponto poder fazer a diferença no futuro dos alunos», ao que o visado respondeu apelando a que os pais e todos os cidadãos levantem a voz contra a proliferação de classificações mentirosas sobre o conhecimento e capacidades dos alunos, enganando-os, enganando os seus pais e causando injustiças em série. E não se tratava, no entender daquele professor, de reprovar os alunos em massa, nada disso, tratava-se, tão-somente, de realizar um trabalho decente e justamente avaliado.
Ter-se-ão calado, aqueles pais, mas ninguém crê que tenham ficado convencidos.
Afinal, que sociedade queremos?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

DÉFICE NA EDUCAÇÃO

Texto amavelmente cedido pelo Professor Galopim de Carvalho, que aqui se publica com sentida gratidão.

No passado dia 3, o Primeiro Ministro, na cerimónia de entrega do Prémio Manuel António da Mota, no Palácio da Bolsa, no Porto, disse, preto no branco:
“De uma vez por todas, o país tem de compreender que o maior défice que temos não é o das finanças. O maior défice que temos é o défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
Dito, creio que de improviso, o que está no pensamento de António Costa, veio ao encontro do que ando a dizer há muitos anos.
Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior, em todas as áreas do conhecimento, está ao nível do que caracteriza os países mais avançados, é confrangedor assistir à generalizada iliteracia dos portugueses, incluindo muitos dos nossos quadros superiores, intelectuais de serviço e políticos de profissão que, embora conhecedores dos domínios em que se movimentam, são falhos de outras culturas, em particular da científica, que a escola deveria dar mas não deu, como está implícito nas palavras do Primeiro Ministro.
Sou levado a pensar, e não estou só nesta ideia, que grande parte da situação vinda agora, bem ao de cima nas ditas palavras, radica, desde há muito e em grande parte, na “máquina” do Ministério da Educação. Os ministros e secretários de estado, uns com ideias, outros sem elas, têm-se seguido ao sabor das legislaturas e das remodelações. Foram entrando, ignorando muitas das disposições dos que os antecederam, criando outras e desaparecendo de cena, dando lugar a novos outros, em repetição deste desgraçado ciclo. Mas a “máquina”, essa, praticamente, não muda e é essa, quanto a mim, uma das responsáveis pelo défice agora denunciado por António Costa.
Outra parte da responsabilidade desta triste e lamentável situação cabe aos sucessivos chefes de governo que, mais preocupados com outros sectores da administração, dividendos políticos e outras aberrações dos aparelhos partidários instalados, têm descurado este gravíssimo problema, dito agora nas suas palavras como primeiro ministro: “défice que acumulámos de ignorância, de desconhecimento, de ausência de educação, de ausência de formação e de ausência de preparação”.
É urgente olhar para a realidade do nosso ensino e é preciso vontade política para promover uma profunda avaliação e consequente reformulação desta máquina ministerial despida de constrangimentos mais partidários do que políticos 
É preciso e urgente que o Ministério da Educação se torne numa das principais preocupações dos governos, não só na escolha dos respectivos titulares, como nas dotações orçamentais que permitam dar às escolas as necessárias condições de trabalho e de relativa autonomia e, aos professores, a dignidade compatível com o importantíssimo papel que representam na sociedade, a começar nos respectivos vencimentos.
É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si um conjunto de bons professores e outros profissionais capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino básico e secundário, a começar na conveniente e eficaz formação de professores, reformulação de programas passando pelos livros e outros manuais adoptados (que envolvem interesses instalados) com discursos estereotipados que se repetem acriticamente em obediência a esses programas, levando ou, melhor, obrigando os professores, não a ensinar e formar cidadãos, mas a “amestrar” alunos a acertar nos questionários de exames, por vezes, autênticas charadas.
Sempre disse e insisto em dizer que o professor deve saber muito, mas muito mais do que o estipulado no programa da disciplina que deve ter por missão ensinar. Não pode, de maneira nenhuma, ser um mero transmissor das noções, tantas vezes, insisto em dizer, estereotipadas e acríticas dos manuais de ensino.
Esse muito mais está na abrangência dos seus conhecimentos, não necessariamente especializados ou de ponta (indispensáveis no ensino superior), mas ao nível de uma sólida cultura científica e humanística. E isso vem de trás, da formação cívica que adquiriu, do modo como passou pela universidade e do proveito que tirou desse privilégio, numa sociedade plena de desigualdades como tem sido a nossa. Mas esses conhecimentos, todos sabemos, estão ao seu alcance nas hoje muito boas bibliotecas das escolas e, agora mais do que nunca, na inesgotável, imediata e acessível via “on line”. 
Para tal, os professores necessitam de tempo, e tempo é coisa que os professores não têm. Há que libertá-los de, praticamente, todas as tarefas que não sejam as de ensinar. Há que resolver o problema das suas colocações, com vidas insuportáveis material e emocionalmente, a dezenas de quilómetros de casa, separados das famílias.
Se nada disto for iniciado por este governo, as palavras de António Costa que, estou certo, terão todo o apoio dos PCP; BE e PEV, não passarão disso mesmo.
O sistema social e político dominante na sociedade capitalista que domina na União Europeia, continua a promover e alargar o fosso entre os que estudam, e assim aspiram e conquistam o direito à cidadania, e os outros. Transmitir esta mensagem aos jovens é um dever moral e cívico dos professores, essencial na luta contra o insucesso escolar e pelo direito a uma condição humana de maior dignidade. Não é fácil, mas não é impossível esta tarefa. Há que saber ganhar a confiança dos alunos e, também, o seu afecto. Feliz do estudante que goste da convivência com o seu professor. Essa relação é decisiva na sua atitude face à escola e ao gosto de aprender. Duplamente feliz se o professor estiver à altura do seu papel que, para além de educacional, é, sobretudo, social.

A. M. Galopim de Carvalho

Afixado por: José Batista d'Ascenção