terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Duas baixas no meu grupo disciplinar…

Como temia, fiquei a saber (hoje) que duas das minhas queridas Colegas de grupo disciplinar, de há longos anos, na escola em que trabalhamos, meteram baixa. São boas profissionais, rarissimamente faltavam e aguentaram até não poderem mais. É tanta a falta que fazem, aos alunos e a nós, colegas, como a tristeza que deixam.
À A.R. e à C.L. desejo que as tempestades que se abateram sobre as suas vidas aliviem o mais depressa possível. Não há mal que sempre possa durar. E há sofrimentos que ninguém merece, mormente as pessoas que sempre tiveram uma enorme atenção aos outros e que nunca falharam na sua disponibilidade profissional. Ocorre-me aquela quadra simples de António Aleixo:
Queria que o mundo soubesse
Que a dor que tortura a vida
É quase sempre sentida
Por quem menos a merece.

E Vós não mereceis, queridas Amigas, estimadas Colegas.
Estarei sempre à Vossa espera. Eu e não apenas eu.
Um grande abraço.

JB

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Escola que trucida professores

Porque vejo eu tantos professores a falar da (desejada) ida para a reforma?, ou de que sentem que não aguentam e que vão meter atestado médico (ressalvando a sua pena pelos alunos)?, ou de que não entendem a pressão que sobre eles é exercida para que haja boas “notas” (independentemente de os alunos saberem ou não)?, ou de que chegam a sentir receio de circular nos corredores da escola desertos de funcionários, em horas em que o movimento é menor?, ou de que não têm tempo para preparar as suas aulas, fazer e corrigir os testes?, ou de que estão fartos de reuniões que servem para discutir tudo menos o que é importante para poderem trabalhar melhor? Enfim, porque vejo eu tantos deles desanimados e mesmo em pânico, com o presente e com o futuro?
Ontem testemunhei tudo isto, presencialmente. Mas só hoje o passo a escrito por uma questão prudencial, para não o fazer a quente, dominado pelo sentimento.
Bem sei que para quem está de fora (quem sabe se sofrendo tanto como os docentes…), uma solução fácil seria despedir sumariamente todos os professores fragilizados ou em desespero. Mas, parece-me que se os substituíssem por outros, mesmo jovens e frescos, a breve trecho eles ficariam num estado parecido ao dos que, envelhecidos e destroçados, estão em funções.
Perante tudo isto, as entidades superiores parecem dormentes…
E até alguns defensores vistosos dos professores e das escolas e dos alunos, sempre prontos a dar receitas de pedagogia, se possível vendendo uns livros (supostamente) analíticos e prescritivos, parece andarem (mais) silenciosos, o que, pela minha parte, agradeço.
Não pude evitar escrever estas linhas, de que sou (o único) responsável, referindo-me a terceiros, julgando alcançar bem a dimensão e a profundidade do que sentem e, sobretudo, antecipar as consequências disso…

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Eis-nos (embalados) no 2º período

À lida, prezados meninos, caríssimos professores e estimados funcionários!
Já só faltam dois terços do ano lectivo.
Para muitos alunos, o segundo período foi, em tempos, o das “boas notas” (ou das melhores “notas” possíveis) e o terceiro correspondia ao tempo de “aproveitar a embalagem”, dado que já só faltava um “pouquinho” para o final do ano. Se esta “ladainha” não servir para animar, procurem (via) melhor, sem desistir (de algo com efeito equivalente…).
Para os professores: é aguentar, que já faltou mais que agora, e há tanto a fazer que quando conseguirmos dar conta do recado (exaustos), o ano lectivo já (nos) fugiu há muito.
E para os senhores funcionários: esqueçam o barulho dos meninos nos corredores, esqueçam também o pouco que ganham e a diversidade de tarefas a que têm de acorrer, mas não faltem com o vosso esforço e o vosso sorriso que, sem eles, nem os alunos nem os professores vão a lado nenhum.
E aos senhores encarregados de educação, pode-se pedir alguma coisa? Não, os professores, pelo menos, não podem, mas não estão proibidos de, humildemente, darem uma sugestão: tentem reparar em como - professores e funcionários - gostamos de ver crescer os vossos filhos: porque aprendem, porque ficam mais bem formados e mais crescidos e mais completos e mais aptos a mostrar como foram bem educados pelos pais e ensinados pelos (seus) professores. E mais: não são só os pais que ficam orgulhosos deles. Os professores também. E muito.
Vamos lá, então.

José Batista d’Ascenção

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Auto-avaliação” – Um mito com consequências

O primeiro período lectivo aproxima-se do fim. Mais uma vez, em tantas escolas do nosso país, às últimas aulas de cada disciplina há-de corresponder o sumário: “auto-avaliação”.
Por força do hábito, novamente vou deixar os alunos mais ou menos embaraçados, não porque escreva aquele sumário, mas porque fico absolutamente calado, face aos que queiram “auto-avaliar-se”. E aos que pretendem que me pronuncie refiro que o conceito “auto-avaliação” significa: avaliação do próprio pelo próprio. Se insistem, opto por perguntar quais são os elementos que eles mais valorizam na avaliação. Ao que invariavelmente respondem: os testes! A seguir pergunto-lhes quem fez as perguntas dos testes e as respectivas cotações, e eles respondem: o professor! Após o que faço mais uma pergunta: quem corrige e atribui a pontuação às respostas? De novo me respondem: o professor!
Nesta altura já alguns deixam escapar que a “auto-avaliação” é ilusória, que não existe realmente… Então, se o ensejo o permite, pergunto-lhes se acham que alguém deve ser juiz em causa própria, isto é, se é com avaliação, juízos e decisões dos interessados que se conseguem condições de objectividade, de imparcialidade e de isenção, de que dependem o rigor e a equidade.
Se houver espanto ou incredulidade, pergunto-lhes se acham que as provas desportivas dispensam os árbitros e se, na falta inesperada do juiz da partida, pode recorrer-se a um membro suplente de qualquer das equipas para dirigir o jogo…
Aqui chegados, normalmente a plateia está rendida, e podemos ir mais longe. Passamos por isso a considerar certos papéis de alunos e professores, para chegarmos à conclusão, mais ou menos consensual, de que se o aluno está a aprender é porque ainda não sabe (o que precisa que lhe ensinem) e portanto não deve, nem devia poder, pronunciar-se sobre o seu grau de conhecimentos, nas matérias específicas em que é aprendiz. A avaliação de conteúdos surge assim como competência de execução criteriosa, muitas vezes difícil e mesmo dolorosa, cuja responsabilidade (ou ónus?...) deve recair exclusivamente sobre os professores.
Então, falta apenas acrescentar que, definidas claramente as funções de professores e alunos, a estes assiste o direito de conhecerem com exactidão o tipo de conteúdos e objectivos de cada disciplina, bem como os critérios de avaliação a que estão sujeitos. Devem igualmente usufruir do direito de reclamação sobre as classificações que lhes são atribuídas, mediante fundamentação apresentada pelos encarregados de educação, como já acontece.
Para os alunos basta. Com eles facilmente me tenho entendido. Gostaria era de perguntar a quem superintende a Educação no meu país e aos que se arrogam a capacidade de definir as grandes linhas filosóficas e pedagógicas do ensino, até quando é que os professores vão poder continuar a provocar desconforto e contrariedade em certos alunos, às vezes criancinhas do primeiro ciclo do ensino básico!, obrigando-os a pronunciarem-se sobre a classificação de que se acham merecedores…

Nota: Este texto foi publicado exactamente assim no jornal “Público” de 22 de Novembro de 2002, na página 5. Porque nem as circunstâncias se alteraram (para melhor) nem eu deixei de pensar o que pensava, decidi (re)publicá-lo aqui.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"O monstro é o Ministério da Educação"

"A ninguém há de passar pela cabeça que melhores resultados se conseguem com menos trabalho, menos autonomia das escolas e dos professores, menos dedicação, menos exigência e menos desperdício no sistema educativo. O monstro – e o complexo de pedagogos, técnicos e pessoas que há muitos anos não põem o pé numa escola e escrevem textos ilegíveis – nunca aceitou como boas nem a experiência nem as recomendações de professores. Como resposta, prepara-se para manejar as estatísticas a fim de acabar com as retenções, em vez de insistir na preparação dos alunos para enfrentar o destino e escolherem o seu caminho."

Não é heresia minha. Escreveu-o Francisco José Viegas. Aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Disciplinas bienais do ensino secundário e pedagogias degeneradas

A despeito do discurso formal e oficial, seja pela positiva, seja pela negativa, a realidade das escolas escapa em grande parte ao que fica nos registos escritos e, não raro, tão mais profundamente quanto mais assertiva é a redacção de actas e relatórios… É algo difusamente consensual, que muitos só afirmam em privado e talvez por isso funcione (tão bem!) como segredo universalmente partilhado.
O assunto deste texto é o que passou a fazer regra em muitas escolas em matéria de avaliação no segundo ano da leccionação das disciplinas bienais: algumas pessoas, sobretudo pais de alunos e professores (do ensino secundário!), particularmente quando eles próprios são pais de alunos, não querem, nem ao jeito nem à força, que no décimo primeiro ano se exija aos alunos que tenham presente e possam ser chamados a responder sobre matéria do ano anterior da disciplina (que por alguma razão é bienal), porque dizem - pasme-se! - que os alunos já foram classificados nessa matéria. Como se o saber se pudesse ou devesse fazer para despejar num dado teste de avaliação, numa dada data, e depois já pudesse seguir para as profundas do esquecimento e da indiferença, uma vez que… já foi testado (por vezes na sequência de barrigadas de estudo pontuais). Ou seja, não se aprende para se saber (e ficar a saber), mesmo o que é basilar, genérico e fundamental, mas para ultrapassar obstáculos que possam atrapalhar a obtenção de um salvo-conduto rumo ao curso pretendido. A este curioso efeito não é alheio o facto de (ainda) se (continuar a) lutar à centésima para a entrada em certos cursos do ensino superior, como os de medicina. A perversidade da situação torna-se mais acentuada pelo facto de aquela luta se resumir a uma minoria de alunos, porquanto a generalidade deles não aspira, por não poder nem querer, ao ensino médico universitário.
Chegámos aqui
Além de triste, dado que protagonizada principalmente (!) por professores, esta situação bizarra configura um atentado a qualquer noção de pedagogia digna do nome, ao mesmo tempo que empurra os docentes para uma situação em que eles próprios não merecem o respeito… deles mesmos, quanto mais de terceiros. E é também profundamente doloroso, porque alguns desses professores supõem que assim ficam mais próximos (mais amigos?…) dos alunos, quando o mais provável é que eles os desprezem, tanto quanto desprezam a importância do que esses professores lhes ensina(ra)m (ou deviam ter efectivamente ensinado) e a necessidade (e a conveniência e o dever) de que seja, a todo o momento, se for oportuno ou necessário, (re)avaliar.
Aspectos como este passam ao lado do ministério da educação e das inspecções realizadas nas escolas, ocupados que estão com motivos algo etéreos e, sobretudo, com estatísticas que revelem… sucesso.
E no entanto, nas escolas onde tais práticas ainda não conseguiram penetrar, porque há professores que o não admitem, os dados de sucesso verdadeiro, sejam quais forem os “rankings” que se fizerem, são públicos e notórios. Refiro-me, em concreto, ao que se passa no domínio das disciplinas de biologia/geologia na Escola Secundária José Falcão e na Escola Secundária Infanta D. Maria, ambas em Coimbra. Àquelas Escolas, e em particular aos (meus colegas) professores de biologia e geologia que lá trabalham, os meus parabéns.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Indisciplina na Escola

Em artigo na página 46 do jornal “Público” de hoje, Santana Castilho, escreve: …”durante o ano lectivo de 2015/16, registaram[-se] 5051 ocorrências do foro criminal nas escolas portuguesas, isto é, 500 por mês, em média. No ano anterior haviam sido registadas 3930”. E sublinha que “não se trata de incidentes disciplinares”, antes foram “ocorrências que caem sob a alçada do Código Penal”. A somar, “a PSP teve ainda que intervir em mais 2001 situações de outro tipo”.
E continua: “Aquando de casos mais graves de violência em meio escolar, verifica-se, por parte das autoridades respectivas, uma propensão para dissimular os acontecimentos”, anotando mais adiante, …“a indisciplina é hoje um dos maiores problemas, senão o maior, do sistema de ensino e (…) há uma evidente crise de autoridade na escola”. Porém, continuando a citar, “do ponto de vista interno, [há] falta de coragem para adoptar políticas adequadas à solução dos problemas”; o que existe materializa-se “numa lei inadequada que introduziu no processo disciplinar o método processual penal, com (…) prazos, audições e garantias pedagógicas desadequadas,” o que permite “a proliferação de pequenos marginais”; e, “do ponto de vista externo, [há] crescente demissão dos pais para imporem a disciplina aos filhos.”
(…)
E prossegue: “Os alunos indisciplinados criam problemas graves, que perturbam a vida da comunidade. A escola deve fazer o possível para os ajudar. Mas antes tem a obrigação de proteger os outros e não permitir que os primeiros lhes tornem a vida impossível.” [E a aprendizagem, realço eu…]
(…)
Se em casa não há meio de regular o carácter “intenso e até tumultuoso” das emoções dos jovens, “temos que dar instrumentos à escola para enfrentar o obstáculo.”
(…)
E termina, escrevendo: “Uma forma de ignorar o problema da indisciplina é não o assumir como coisa da sociedade e da escola e torná-lo coisa do professor, cuja função é mediar a aprendizagem dos alunos [eu preferiria dizer: “ensinar os alunos”] e não gerir conflitos provocados por comportamentos disruptivos. Tenhamos presente que essa função é constantemente secundarizada, quando não anulada, pela indisciplina e que grande parte do tempo lectivo é ocupada com a gestão de conflitos, quando devia ser usada com a gestão das aprendizagens”.

Uma análise objectiva e rigorosa, traduzida num diagnóstico realista que aponta para soluções que não podem deixar de ser possíveis tanto quanto são desejáveis.
Cadê, a coragem?
Parabéns e obrigado a Santana Castilho.

José Batista d’Ascenção