segunda-feira, 15 de maio de 2017

O que é mau (ou está mal) nunca muda no sistema de ensino em Portugal: nasce cresce e permanece, permanece, permanece…

No dia 22 de Setembro de 2003, o jornal «Público» (nº 4932) dava à estampa uma carta minha (pág. 5), intitulada «Novos programas do 10º Ano», de que transcrevo os seguintes excertos:
«Apresentados como mais adequados à realidade escolar, pressupondo um modelo educativo centrado nos alunos, os novos programas do 10º ano, (…) são muito peculiares ao nível da filosofia, da linguagem, dos objectivos, dos conteúdos e das metodologias, sem serem propriamente originais… Acertámos finalmente no alvo? É duvidoso, mesmo considerando um por um qualquer daqueles aspectos.
Restrinjo-me à parte de Biologia, do programa de Biologia e Geologia, por uma questão de delimitação e de legitimidade crítica profissional. Os conteúdos distribuem-se por unidades com um arranjo e sequência artificiais e arbitrários.
(…)
Situação que me causará dificuldade, dentro de poucas semanas, é a sugestão metodológica: “montagem de dispositivos experimentais com seres aeróbios facultativos (ex: Saccharomyces cerevisiae) em meios nutritivos (massa de pão, sumo de uva…) com diferentes graus de aerobiose” (unidade 3). Ora isto é um erro!, que o programa propõe e os manuais reproduzem. Há, porém, muitos especialistas em biologia de leveduras, por exemplo no Departamento de Biologia da Universidade do Minho ou no Instituto Gulbenkian da Ciência, em Oeiras, que, com credibilidade insuspeita, podem confirmar que a Saccharomyces. cerevisiae (levedura do fermento de padeiro) fermenta sempre que haja abundância de glucose no meio (como no sumo de uva ou na massa de pão), independentemente da disponibilidade de oxigénio (grau de aerobiose). Nesse caso, a respiração aeróbia é inibida a vários níveis, apenas sendo activada quando as leveduras estão esfomeadas e dispõem de oxigénio, fenómeno conhecido como Efeito de Crabtree.
Torna-se por isso ingrato lidar com programas e manuais que recomendam profusamente procedimentos e metodologias de análise e experimentação e adiantam resultados tais que não podem corresponder a realidades experimentais devidamente executadas e controladas. E que redundam em “formatação” errada dos alunos…
Sem espaço, e com tanto para pôr na carta, deixo a pergunta: deveríamos preocupar-nos em ensinar matérias específicas, claramente apresentadas e muito bem definidas, ou devemos valorizar a forma e os processos, em detrimento do conteúdo, sob o argumento de que a verdade em ciência é construída e vai variando?
Para onde vamos? O nevoeiro é imperativo.»

Dias depois, com carimbo de 26. 9. 03, recebi na escola onde trabalho, em Braga, via CTT, uma carta da Professora Maria da Conceição Loureiro Dias, do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, com o texto de um “email” que antes me enviara, sem sucesso, e que reza o seguinte:

«Fiquei encantada quanto ontem encontrei a sua carta no Público!
Eu não estou a par dos disparates do programa do 10º ano, mas acho muito positivo que apareça um professor a fazer valer os seus conhecimentos científicos para chamar a atenção dos cidadãos para os erros que se cometem na sua área de ensino.
É muito interessante a sua chamada de atenção para o efeito de Crabtree. Esta é daquelas experiências que nunca correm bem, por motivos com muito boa explicação científica, mas em que o peso da falta de criatividade e de conhecimentos continua a vencer na feitura dos programas.
(…)
Muitos parabéns pela sua coragem em querer fazer melhor!
Com toda a amizade.
Conceição Loureiro Dias»

Mas, o que vale tudo isto? Eu respondo: nada!
Para o Ministério da Educação e para o Instituto de Avaliação Educativa, I. P. (IAVE) não se passou nem se passa nada. Para confirmação consulte-se o livro “Questões de exames nacionais (11º ano) e de testes intermédios (10º e 11º anos) 2006-2013. Com resoluções. Ensino Secundário. Volume II – Biologia. 1ª Edição: Janeiro de 2014.” e veja-se o exercício 16 da página 65 e a respectiva resposta que consta na página 261. Este livro é um manual de exercícios editado pelo Ministério da Educação e Ciência e pelo IAVE.
Fermentação/Respiração aeróbia em Saccharomyces cerevisiae - a experiência mentirosa.
Este é (continua a ser) o panorama. Nesta matéria, que voltei a leccionar há não muitos dias, dói-me ensinar bem os alunos, desmontar o que aparece nas provas do IAVE (exames nacionais), nos manuais e em exercícios disponibilizados por algumas editoras, e depois pedir-lhes a máxima atenção para a eventualidade de, em exame, terem que responder errado para que as suas respostas sejam consideradas certas!
Que (mais) pode um professor fazer?

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA

É já no próximo 1 de Junho, dia da abertura da Feira do Livro de Lisboa, 2017, o lançamento deste meu  último livro, da Âncora Editora.
Embora o título sugira uma obra destinada a juvenis, “O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”, escrito em estilo de diálogo, foi concebido a pensar nos Professores que ensinam Geologia nas nossas Escolas, nos seus alunos e, ainda, na generalidade dos leitores interessados em descobrir a maravilhosa história do nosso Planeta. Esta realização nasceu da experiência que mantive e continuo a manter, proferindo lições por todo o país e em todos os níveis, do Básico ao Secundário e, até, nos Jardins-Escolas. Sem perda de rigor científico, criei e aprendi a usar o discurso pedagógico mais adequado a cada um destes níveis. E é esse discurso que coloco aqui à disposição dos leitores.

ÍNDICE

Introdução
Agradecimentos
É preciso descodificar as palavras.
O nascimento do Astro-rei.
A estrela que nos deu e nos assegura a vida.
O nascimento da Terra.
Lua, a nossa companheira.
Pedras caídas do céu.
“Planeta azul”, a nossa casa.
À semelhança de uma cereja.
Viagem ao centro da Terra.
A pele da Terra.
Para baixo todos os santos ajudam.
Pesamos mais na praia do que na montanha.
Pesamos mais nos Açores e na Madeira do que no Continente
Como na banheira de Arquimedes.
Coisas que é preciso saber para falar de minerais.
Outras coisas importantes para falar de minerais.
E tudo o mais que se aprende ao falarmos de minerais.
Rochas ou pedras?
As rochas que nasceram de um magma.
Dos sedimentos às rochas sedimentares.
O que são e como nascem os calcários.
Quando as rochas se afundam na crosta.
Um sobe e desce de centenas de milhões de anos.
As bocas do Inferno.
Há vulcões e vulcões.
E o que mais se pode dizer sobre vulcões.
Aproveitar o calor da Terra.
Quando a Terra treme.
Duas maneiras de classificar os sismos.
Quando as vidas se transformam em pedra.
O tempo em geologia.
Dinossáurios no Centro Ciência Viva de Estremoz.
Dinossáurios na estrada.
Inalar o ar que os dinossáurios respiraram.
Jangadas de pedra.
Porque é que se diz “tectónica de placas”?
O motor da tectónica de placas.
Um íman do tamanho da Terra.
O chão que nos dá o pão.
Se não houvesse solos, nós não estávamos aqui a falar.

INTRODUÇÃO

Naquele Verão, era quase sempre com o Sol a descer para lá do Oceano, que o avô falava das muitas coisas que haviam preenchido o seu mundo como geólogo e professor de geologia. Sob o alpendre coberto de hera, no pequeno terraço anexo à casa, uma grande mesa com tampo de ardósia, onde se podia escrever com giz, e algumas cadeiras eram o centro preferido para estas conversas com os três netos. Liberta a mesa de tudo o que servira o jantar, o Domingos e os gémeos Francisca e Mateus, rodeando o avô, tinham nos olhos o brilho da curiosidade. Mais velho, o Domingos, terminara o 7º ano de escolaridade. O Mateus e a Francisca tinham concluído o 6º. O tempo de férias era agora todo deles, com praia pela manhã, jogos e leituras, dentro de casa, nas horas mais quentes da tarde e aquele apetecido convívio ao fim do dia, que os conduzia a maravilhosas viagens e aventuras. 
Embalados nas palavras do avô, “caminhavam” sobre rochedos em altas montanhas, “corriam” no solo fofo das estepes e pradarias, “pisavam” o chão áspero e duro dos vales secos e gélidos da Antárctida, “respiravam” a humidade quente e perfumada da floresta amazónica, “mergulhavam” nas profundezas do oceano e “nadavam” nas águas tropicais, límpidas e mornas, por entre corais e peixinhos de todas as cores. Ouvindo as histórias que o avô contava, “subiam” ao topo de vulcões jorrando lavas incandescentes ou projectando nuvens imensas de cinza, “escorregavam” nas dunas escaldantes no deserto do Sahara ou “percorriam” grutas repletas de cristais e imaginavam-se entre dinossáurios e muitos outros animais desaparecidos.
Encorajado pelo interesse e pela atenção dos netos, o avô não parava de falar. Paisagens que percorrera, profundas minas a que descera, museus que visitara, grandes figuras que conhecera e episódios que vivera ou presenciara eram condimentados com ensinamentos nos domínios em que trabalhara e que, ao mesmo tempo, estivessem entre as matérias constantes dos programas escolares destes três elementos do seu pequeno e interessado auditório.
E era tudo tão agradável e entusiasmante. Ouvir o avô era como ver um filme ao lado de alguém que explicava e tornava fácil o que parecia difícil de entender. A cada passo, as novas palavras necessárias ao discurso iam sendo descodificadas, “traduzidas por miúdos”, como dizia o avô, ganhando significado. 
 
Eis o primeiro dos 33 capítulos

É PRECISO DESCODIFICAR AS PALAVRAS

A tarde estivera particularmente quente e foi ainda no final do jantar, servido na mesa do terraço, enquanto saboreava o gelado trazido do supermercado, que a Francisca perguntou ao avô qual seria o assunto da primeira das conversas prometidas, a terem lugar ali, à semelhança do que acontecera nas férias de verão do ano anterior. Seria, certamente, mais uma daquelas lições, dadas num jeito de contar histórias, que dava gosto ouvir.
- Nas conversas que vamos ter este ano, - começou o avô - acho que vou começar com algumas reflexões sobre as palavras que irão ouvir, muitas delas novas e sem significado, se não forem convenientemente explicadas. Mas antes gostava que ouvissem o que me parece importante dizer sobre a palavra.
- Diga avô. Adiantou-se o Mateus.
- Chegada a nós através do latim parabola, que significa discurso ou fala, a palavra é uma característica exclusivamente humana, que nos distingue dos restantes animais a que, de um modo demasiado simplista, adjectivamos de irracionais. Sabemos hoje que este nosso dom reside nos escassos pontos percentuais que nos distanciam do código genético do chimpanzé. Vamos, pois, aproveitar esta capacidade e fruir os bens que o saber nos oferece. 
- Quem fala assim não é gago! – exclamou a neta, olhando o avô com um lindo sorriso.
- Enquanto falada, a palavra é um conjunto de sons que define um ou mais objectos ou ideias. Os estudiosos destas matérias admitem que o andar de pé, ou seja, a postura erecta dos primitivos humanos, a libertação das mãos (especialmente adaptadas à vida nas árvores pelos seus antepassados primatas) e a utilização destas no talhe e no uso de instrumentos conduziram ao aumento de volume do cérebro e ao seu desenvolvimento em termos de complexidade. 
Já ouvi falar em primatas, - interrompeu o Mateus – mas não sei bem o que são.
- Primatas, meu neto, são os animais de um grupo de mamíferos que tu conheces muito bem. São, entre outros, os macacos, os chipanzés, os gorilas, os orangotangos e os seres humanos.
- Obrigado, avô.
- A possibilidade física de emitir mensagens sonoras, aceites como rudimentos de palavras, - Acrescentou a avó, aproximando-se. - isso pressupõe a aquisição de uma capacidade intelectual e de uma outra, física, ao nível do aparelho fonador, ou seja, da boca, da garganta e do nariz, susceptíveis de expressar ideias através de emissões de voz. 
- Essa possibilidade – retomou o avô – pode ter surgido quando os nosso primitivos antepassados começaram cooperar entre si, adaptando formas de comunicação baseadas, não só em expressões da cara e em gestos, mas também nas citadas emissões vocais. 
- Impossíveis de confirmar. - Acrescentou o pai das crianças, atento a uma conversa do seu particular interesse. - As opiniões sobre o início desta etapa da evolução dos nossos antepassados, isto é, da hominização, variam entre as que a aceitam associada ao aparecimento do género humano mais antigo, há cerca de 2.500.000 anos, às que a apontam como uma conquista do homem moderno, há menos de 100.000 anos. 
- Usada com marco divisório entre a Pré-história e a História, - continuou o avô - a palavra escrita é um conjunto de símbolos gráficos ou grafemas susceptíveis de exprimir uma e, por vezes mais, ideias, registados num suporte material como foi o barro e a pedra, na Antiguidade, e o papel e o electrónico, etc., no presente. Na nossa cultura, em que a grafia é alfabética, podemos converter a palavra escrita em sons ou grupos de sons que reproduzem a palavra falada. 
- Deixe-me só acrescentar – pediu o pai das crianças – que a palavra escrita surgiu há cerca de 5000 anos, na Mesopotâmia, acredita-se que por engenho dos sumérios, desenvolvendo-se como uma outra via de comunicação.
- Que, embora de uso muitíssimo mais restrito, - acrescentou o avô - possibilitou ao homem divulgar os seus conhecimentos muito para além do seu espaço geográfico e do seu tempo. 
- São múltiplos os factores envolvidos na criação deste passo importante na civilização e, com isto termino, - disse o pai - um deles foi o surgimento das cidades, como exigência do progresso da economia e da sociedade. 
- Vamos, então, começar pelo significado das palavras. Todos se acordo? 
- Sim, avô. – Disseram, quase ao mesmo tempo, a Francisca e o Mateus.
- E eu também. – Disse, logo a seguir, o Domingos.
- Uma grande verdade que eu aprendi em quarenta anos de professor e muitos mais como divulgador de ciência a todos os níveis, é que «o discurso do professor tem de ser simples, sem perda de rigor, apelativo e, sempre que possível, agradável». Só assim o aluno ou quem o escuta ou lê tem gosto em aprender e aprende.
- É como faz o avô. A gente aprende logo. Quase que não precisa estudar. – Disse este neto.
- Todas as actividades, sejam elas quais forem, das mais simples às mais complicadas, precisam de palavras para dar nomes a todas as ferramentas ou utensílios de que se servem e a tudo o que nelas se faz ou produz. Por exemplo, os cozinheiros servem-se de facas, tachos e panelas, fritam, cozem e assam. Os alfaiates e as costureiras mexem em tesouras, agulhas, linhas e botões, fazem casacos e vestidos e falam de lã, algodão, seda e linho. Todos eles usam palavras que toda a gente conhece, mas também usam outras que nós nem pensamos que existem. Passa-se o mesmo com os médicos, os economistas, os juristas e todos os cientistas e técnicos dos mais variados ramos. Também eles falam de nomes do dia-a-dia de toda a gente, mas atiram-nos à cara muitos outros que só eles e muito poucos entendem. Em suma e simplificando, tudo o que se pensa ou faz e tudo em que se mexe tem um nome. Com a geologia é a mesma coisa. Além das palavras vulgares esta ciência que estuda a Terra criou as suas próprias palavras. 
- É mesmo isso. – Interrompeu o neto mais velho. - Quando o avô ou a minha professora falam de coisas da geologia, aparecem sempre palavras novas.
- Os cientistas estão sempre a descobrir coisas novas e, assim têm de criar neologismos. Aqui têm os meus netos, uma palavra que vem mesmo a calhar. Neologismo é o nome que se dá a uma palavra criada de novo e que foi feita a partir dos elementos gregos, neo, que quer dizer novo, e logos, que significa estudo, conhecimento.
- Então, temos de aprender grego? – Perguntou o Mateus com ar de alguma preocupação.
- Não. Basta que saibam o significado dos termos que entram na composição dos vocábulos próprios das disciplinas que têm de estudar. Uns vêm do grego, outros do latim.
- Vocábulos, Avô? – Interrompeu, de novo, o Mateus.
- Aí tens tu uma palavra tirada do latim vocabulu que quer dizer nome de uma coisa. Mesa, copo, lápis, areia, piscina, mar e todos os nomes que conheces e não conheces são vocábulos. Entre os vocábulos usados em geologia, por exemplo, há palavras que toda a gente conhece, como montanha, rocha, areia, erosão, mina, vulcão, e palavras só usadas pelos profissionais, como turbitito, gliptogénese, anatexia, piroclasto, orógeno, hialoclastito e muitíssimas outras, em número de centenas. São nomes que, de momento, nada vos dizem e que, a seu tempo, poderão vir a conhecer.
- E são essas que vamos aprender? – Perguntou o Domingos.
- Por agora nem todas, mas, mais tarde, certamente que sim. - Continuou o avô. - Eu costumo dizer que são palavras “caras” que é preciso “trocar por miúdos”. No século XVIII, quando as ciências começaram a ganhar importância, estudar e criar conhecimento era uma actividade, praticamente, só exercida no seio do clero, por padres e monges, e também por alguns representantes da nobreza. O latim e o grego faziam parte das disciplinas habituais no ensino a que, nesse tempo, só estas classes tinham acesso. O povo, dizia-se, não precisava estudar. Bastava-lhe a força dos braços e a habilidade das mãos. Estava-se muito longe de o ensino ser obrigatório para toda a gente. 
- A cabeça do povo era só para pôr o chapéu ou o barrete. - Entrou na conversa a avó, atenta à conversa. – O clero e a nobreza sabiam muito bem que os seus privilégios assentavam na ignorância do povo. 
- E fiquem a saber - acrescentou a mãe das crianças, atenta a esta conversa - que, mesmo depois e por muito tempo, estudar era uma actividade só acessível aos homens. As mulheres não tinham essa possibilidade. Serviam para tudo menos para estudar. Estavam destinadas a serem boas esposas, boas mães e boas donas de casa. Ainda pouco na geração da avó, mas depois, felizmente, na minha, as raparigas já puderam estudar lado a lado com os rapazes. 
- Era como ainda hoje em algumas sociedades dominadas por fundamentalistas religiosos, em que as raparigas estão proibidas de ir à escola. – Lembrou a avó. 
- Hoje, nas nossas escolas, - continuou a mãe das crianças - praticamente, ninguém estuda latim ou grego. Só na Universidade e, mesmo assim, são poucos os alunos que frequentam estas disciplinas. O latim que os romanos falavam já não se fala em parte nenhuma, nem em Itália. E o grego que se fala na Grécia já sofreu grandes alterações.
- Bom, mas continuemos. - Interrompeu o avô. - Os cientistas têm de dar nomes às coisas que vão descobrindo ou, por outras palavras, como já dissemos, têm de criar neologismos. E, respeitando a tradição, fazem-no a partir de nomes que vão buscar a essas duas línguas da Antiguidade. São palavras que, praticamente, só eles e os seus pares entendem.
- E geologia é outra dessas palavras, não é, avô? – Disse o Mateus.
- Aí temos nós mais um bom exemplo para começar. – Continuou o avô. - A palavra geologia foi feita juntando dois elementos também de origem grega, geo, que significa Terra, e logos, que quer dizer estudo, conhecimento. Geologia é hoje uma palavra conhecida de muita gente mas, no século XVIII, quando foi introduzida com o significado que lhe damos, só os mais eruditos a conheciam.
Eruditos, Avô? Isso é outra palavra cara? – Perguntou o Mateus, a rir.
- É uma palavra que fomos buscar ao latim eruditu e que se aplicava a uma pessoa que sabia muito. E quem diz geologia diz muitas outras. Por exemplo, a palavra cassiterite, nome que foi dado ao mineral de estanho que podem ver aí na colecção que o Domingos começou a fazer, teve origem no grego, kassiteros, que significa estanho, e a que se acrescentou o elemento ite com que terminam os nomes da maioria dos minerais.
- A minha professora também explica as palavras mais esquisitas. - Disse o Domingos.
- À medida que formos falando de geologia – continuou o avô - iremos sempre explicando como nasceram as novas palavras que forem aparecendo, o que torna fácil tudo aquilo que parece difícil. Se souberem o significado dos elementos de que são feitos os nomes que forem aprendendo, eles passam a fazer uma parte sólida do vosso conhecimento.
- Diga mais palavras dessas. Avô. – Pediu a Francisca.
- Digo só mais uma que iremos usar muitas vezes,
- Diga, avô. – Entusiasmou-se a neta.
- Litosfera, que é o nome que se dá à camada exterior da Terra, toda ela formada por rochas. Analisando esta palavra verificamos que, também ela, foi feita juntando dois nomes gregos: lithós que significa pedra ou rocha, e sphaira que, está-se mesmo a ver, quer dizer esfera.
- Assim, fica tudo mais fácil. Obrigado, avô.
- Por hoje já chega. Para terminar, vamos meter bem na cabeça que todos os vocábulos que ouvirmos ou lermos, à medida que formos avançando no nosso estudo, têm de ser explicados. Se não tivermos este cuidado, não passam de palavrões sem significado que decoramos para podermos responder no exame e que, depois, se esquecem para sempre. E agora vão brincar um bocadinho, antes de irem para a cama.

A. M. Galopim de Carvalho

Publicado por José Batista d'Ascenção

terça-feira, 25 de abril de 2017

A (boa) formação que os professores pagam e que frequentam dispondo do que poderia (e deveria) ser o seu tempo de repouso (ou de preparação de aulas e testes, etc. …)

Em meu entender, a formação contínua de professores do ensino básico e secundário tem sido genérica e globalmente fraca, parece(-me) não ter dado frutos apreciáveis e talvez, até, em certos casos, tenha sido propagadora daquilo que, em extensão do conceito, me atrevo a apelidar de «pseudociência».
Mas não é sempre assim, felizmente. No passado fim-de-semana, decorreu em Coimbra o VII congresso da APPBG, subordinado ao tema «Tectónica de Placas», em que interveio um naipe de conferencistas e guias de visitas de campo do mais fino escol de que o país dispõe.
O primeiro interveniente foi o Professor Galopim de Carvalho que começou pela condição primeira: os professores devem servir para ensinar e é preciso ensinar bem, porque as crianças e jovens interessam-se e entendem, se o fizermos com a qualidade e paixão de que os professores são capazes, se os programas forem de molde a permiti-lo, se as tarefas burocráticas deixarem de esmagar os docentes, se os exames não contemplarem perguntas que ele próprio, Galopim de Carvalho, não percebe bem o que pretendem, assim como não entende a necessidade de recurso a ratoeiras inqualificáveis, etc. Na sua linguagem de rara clareza e incisão, tão diplomática e afectiva quanto cristalina e dirigida, soube pôr os pontos nos is como mais ninguém faria, o que fez explodir em palmas os muitos professores presentes.
Outro veterano, da área da biologia, da botânica, concretamente, o Professor Jorge Paiva, o único especialista vindo de fora da geologia, proporcionou uma conferência em que a fitogeografia surgiu muito bem relacionada com a deriva continental, de forma tão curiosa quanto interessante.
O dia de sábado foi muito bem preenchido desde as nove da manhã até ao fim da tarde, com almoço (rápido e bom) no local, sempre com o tempo a faltar para os palestrantes satisfazerem o interesse dos participantes. Não foi tempo perdido, nem os professores esmoreceram na sua vontade de aprender.
O dia de domingo, 23, foi dedicado a visitas de campo, três à escolha: à Península de Peniche, ao Maciço Calcário Estremenho e ao Anticlinal de Valongo e praias de Lavadores (V. N. Gaia).
Porque me ficava a caminho de casa, optei pela Visita a Valongo, guiada pelos Professores António Guerner Dias e Maria Anjos Ribeiro, do Departamento de Geociências da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Esta visita iniciou-se pela exposição “No rasto das trilobites”, patente no Museu Municipal de Valongo, onde vai ficar vários meses e pode ser visitada por alunos das escolas secundárias. De seguida, subiu-se ao alto de Sta Justa, onde pudemos observar os quartzitos puros, mais resistentes à erosão, com filões de quartzo e “manchas” de óxidos de ferro e vazios cúbicos (com arestas na ordem de 1 cm) resultantes da meteorização e erosão dos cristais de pirite que os ocupavam, possivelmente os três indicadores da presença de ouro de que os romanos se serviram para situarem as diversas minas que exploraram na região.
«Fojo das Pombas»
Foi uma dessas minas (às dezenas), a do «Fojo das Pombas», que visitámos a seguir: devidamente equipados, com capacete e lâmpada, com uma guia bem preparada, descemos por galerias, corredores e poços, a dezenas de metros de profundidade, de onde avistámos poços mais profundos ainda. Estas minas são visitáveis, mediante marcação através da câmara municipal, tendo que aguardar-se até haver número de visitantes que o justifique (mais ou menos dez pessoas de cada vez).
Atrasados, porque os professores queriam ver, ver, ver e saber, saber, saber, passaria das 14.30 h quando fomos almoçar. Com alguma pressa, porque era preciso ir à praia de Lavadores, um museu e laboratório natural com os três tipos principais de rochas: sedimentares, metamórficas e magmáticas, ali, cheias de «pormaiores» reveladores da sua formação (e deformação, no caso das metamórficas), muito bem explicitados pelos excelentes guias que nenhuma curiosidade manifestada deixaram por esclarecer.
Praia de Lavadores - O Prof. Guerner explica...
Mas o tempo fugia. Seriam 18.00 horas e havia quem tivesse que chegar a Portimão ou a Chaves, para preparar a trouxa, dormir e estar a dar aulas às 08.20 h de ontem. Eu era um desses, mas estava em casa às 19.30 h, depois de deixar a colega Manuela Miranda na estação rodoviária de Braga, a mascar umas bolachas, fazendo tempo para apanhar o autocarro das 20.30 h para Chaves. E estava contente, a Manuela. Como eu. E os três blocos de noventa que encaixei na manhã de ontem, com os meus alunos de 10º ano, pareceram-me até menos difíceis de conduzir do que habitualmente.
Ficou-me um pouco cara, esta «acção de formação», mas valeu bem o dinheiro.
À APPBG, aos «formadores» e aos colegas «formandos», especialmente àqueles com quem na juventude me formei e que revi, depois de décadas, deixo um abraço sentido de parabéns, amizade e agradecimento.

José Batista d’Ascenção

PS: Hoje é uma data especial, de grande significado para mim. O escrito que antes redigi fica também como homenagem minha ao 25 de Abril, o Dia da Liberdade.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Congratulações a alunos que são algo mais que (simples) alunos, no caso, pela participação nas olimpíadas da biologia.

Conheceram-se no final da semana passada os resultados da participação dos alunos das escolas portuguesas na segunda eliminatória das olimpíadas da biologia. Na escola Secundária Carlos Amarante (ESCA) – Braga, apuraram-se «para a grande final que decorrerá no dia 06 de Maio na Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro (UTAD), em Vila Real», dois alunos de 12º ano de escolaridade: a Maria Soares Marques Figueiredo Portela, reincidente nestas andanças, que o ano passado, em Setembro, foi ao Brasil e trouxe para Portugal uma medalha de prata, e o João Ricardo Alves Coelho.
Estão de parabéns, a Maria e o João e os professores que lhes têm ensinado biologia. Está igualmente de parabéns a ESCA e os professores organizadores da participação nas olimpíadas.
Na ESCA, muitos alunos têm participado com sucesso em actividades científicas diversas, por exemplo na Universidade do Minho e em encontros de robótica, de drones, etc., o que muito os enriquece, servindo também como exemplo e estímulo para os restantes. Isto é tanto mais importante quanto, a todo o momento, temos notícias de acontecimentos tristes nas escolas e fora delas, às vezes no estrangeiro…, protagonizados por alunos a quem os pais, os professores e a sociedade em geral, não foram capazes de incutir certos valores de elevação e de dignidade desejáveis… As chamadas “praxes” universitárias” são outro exemplo deplorável, e às vezes macabro, da animalidade que parece contaminar até o que deviam ser os cérebros escorreitos dos nossos alunos mais bem preparados. Atenção, sublinho o “parece”, porquanto os alunos realmente bons são injustamente metidos no caldo, quando, simplesmente, não são normalmente eles que estão envolvidos em comportamentos soezes, de que a sensibilidade e a inteligência, naturalmente, os afastam.
No caso específico da participação dos alunos da ESCA nas olimpíadas da biologia, considerando o número relativamente elevado de inscritos e os resultados que têm sido obtidos, há sério e fundamentado motivo de reflexão para matérias como a desejável adequação das provas dos exames nacionais de biologia e geologia: objectividade e clareza das questões, respeito pelo âmbito dos programas, definição de critérios de classificação, atribuição de cotações e, até, a operacionalidade do processo concreto de «correcção» dos exames (a cargo de certos professores «condenados» gratuitamente a essa função), exames cuja concepção é, aos meus olhos, altamente criticável (apesar de eu ser, desde sempre, defensor da existência de exames). E não é porque os testes das olimpíadas da biologia sejam absolutamente irrepreensíveis ou que não contenham questões que possam escapar ao definido nos programas (o que, neste caso, até se compreende, já há alunos que sabem mais, há sim senhor!), mas porque demonstram cabalmente que é possível e desejável, tanto quanto é necessário, melhorar os exames nacionais de biologia e geologia, os quais, mais que revelar que os alunos não estão preparados ou que os professores não são (suficientemente) competentes, mostram também, ou principalmente, que as pessoas e entidades responsáveis pela sua elaboração pertencem (aparentemente) a uma galáxia diferente daquela em que se situam e funcionam as escolas e os alunos.
E não havia necessidade…

José Batista d’Ascenção

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O MOCHO, A PEGA E O PAPAGAIO FALAM DE MINERAIS, ROCHAS E FÓSSEIS


Por A. M. Galopim de Carvalho


Apresentação de um projecto

Era sempre ao fim da tarde, no grande Jardim Zoológico. 
Nos meses em que os dias são mais compridos, entre o fechar dos portões e a hora em que o sono os transportava para a manhã seguinte, o mocho, a pega e o papagaio tinham artes de sair das prisões de rede, onde passavam a maior parte do seu tempo, para se juntarem em animadas conversas. 
O local de reunião era um daqueles recantos destinados às merendas dos visitantes que preferem comer ali o farnel que traziam de casa. Os restaurantes são caros e só os mais endinheirados é que aqui satisfaziam o apetite, sempre muito, nestas visitas. Um pouco afastados do bulício, estes locais, com mesas e bancos de pedra à disposição do público, tinham para estas aves o atractivo de, ao fim de um dia de visitas, ficarem cheios de restos de comida, não só nos contentores ali colocados para os receber, como descuidadamente deixados sobre as mesas ou caídos no chão.
Ali reunidos, o mocho, a pega e o papagaio não estavam sós. Tinham uma audiência variada, em que havia melros, pombos, pardais frequentadores do mesmo jardim, mas gozando do privilégio de serem livres. Faziam ali os seus ninhos e tocas, nas muitas árvores à sua disposição, não lhes faltava comida e podiam sair se e quando quisessem. Também eles poderiam escolher a liberdade e transpor os muros que os isolavam da cidade. Tinham asas, era fácil fazê-lo. Mas o problema era o das refeições que, ali, tinham sempre a horas certas. Não eram como os pombos, os melros e os pardais, há muito adaptados à vida urbana. Além das aves, também ali apareciam, em busca dos já referidos restos de comida, esquilos, lagartos, lagartixas e, até, uma toupeira.

Apanágio da sua espécie, o mocho desta ficção é uma ave muito inteligente, lê tudo o que seja livros de divulgação científica. Tem um interesse muito especial pelas ciências da Terra, fala com propriedade do muito que sabe e, como um professor que se preza, gosta de ensinar. A pega e o papagaio não lhe ficam atrás em dotes intelectuais. Ela lê muito menos, gosta mais de aprender pela experiência e ouvindo falar quem sabe. Ele, praticamente, não lê mas não pára de falar. Fala, fala, fala mesmo daquilo que não sabe. Foi assim que a natureza o criou em terras do Brasil. Tem muito respeito pela sabedoria do mocho e ouve-o sempre com muita atenção e interesse.
- O meu nome vulgar é mocho-galego, mas os cientistas referem-se a mim pelo meu nome em latim, Athene noctua (Scopoli, 1769) – Começou esta ave a conversa com os seus companheiros. - Sou um animal nocturno mas gosto de observar o crepúsculo.
- O crepúsculo? O que é isso? – Perguntou, de imediato, o papagaio.
- O crepúsculo – adiantou-se a pega – é este lento escurecer do fim do dia e do começo da noite.
- Continuando, – retomou o mocho a sua apresentação - sou um dos muitos representantes da fauna portuguesa e os meus semelhantes estendem-se pela Europa, grande parte da Ásia e pelo Norte de África. Alimento-me da bicharada que consigo apanhar, entre insectos, lagartixas, pequenas cobras, outros passarinhos e ratinhos do campo. Só falta dizer que a minha espécie faz os seus ninhos em tocas nas árvores, em rochedos ou, se for preciso, num velho edifício abandonado e em ruínas.
- Eu sou a pega-rabuda. Sou aparentada com os corvos, mas mais pequena. E tenho estas manchas brancas no peito e nas asas que me distinguem deles, que são todos pretos como o carvão. A minha espécie tem a mesma distribuição geográfica que a do nosso amigo mocho e, além disso, ocupa ainda a parte ocidental da América do Norte.
- Mas também tens nome científico. – Interrompeu o mocho.
- Claro que tenho. Chamo-me Pica pica (Lineu, 1758) e, calcula tu, que pelo facto de eu comer de tudo, dá-se o nome de “pica” a uma doença que refere o comportamento anormal de certas pessoas que comem coisas que não são de comer.
- Quando dizes que comes de tudo, que tudo é esse? – Perguntou o papagaio.
- É muita coisa. São insectos, ratinhos do campo, ovos que procuro nos ninhos de outras aves, sementes de cereais e outros alimentos de origem vegetal. Vivemos, de preferência em zonas agrícolas, mas também em parques e jardins como este. E tu? - Virou-se ela para o papagaio. – Também tens nome em latim?
- Claro que tenho. Sou o Amazona aestiva (Lineu, 1758) fui trazido da Amazónia, no Brasil, e sou conhecido em todo o mundo porque posso aprender a falar como as pessoas.
- E tu sabes quem é que te deu esse nome? – Interrompeu o mocho.
- Não faço ideia, mas gostava de saber. E também gostava de saber porque é que tenho de ter um nome em latim
- Este teu nome, o da pega e os de uma grande quantidade de animais e plantas foram dados por um naturalista e médico sueco do século XVIII, de nome Carl von Linné, muito citado nas escolas portuguesas por Lineu, o seu nome dito e escrito em português.
O meu foi proposto pelo naturalista e médico italiano, do século XVIII, Giovanni Antonio Scopoli.
- Dizem-se naturalistas, porque estudavam ciências naturais. - Acrescentou a pega, toda interessada na conversa.
- Sim, mas das ciências naturais só se interessou verdadeiramente pela botânica e pela zoologia. – Continuou o mocho. - Como era hábito entre os cientistas desse tempo, os resultados dos seus estudos eram apresentados em textos eruditos, geralmente escritos em latim e até o seu próprio nome tinha uma versão na língua clássica dos romanos. É por isso que aparece muitas vezes referido como Carolus Linnaeus.
- Lineu – adiantou-se a pega – é considerado o pai da taxonomia e da nomenclatura binomial de plantas e animais ainda em uso. 
- Espera lá. – Interrompeu o papagaio, aflito com tantos nomes desconhecidos. – Explica lá o significado desses palavrões.
- Taxonomia é uma palavra erudita, de origem grega, que quer dizer classificação. Pensa no nosso caso, todos os três somos seres vivos. Certo? De entre os seres vivos somos animais, não somos vegetais, que são um outro grande grupo. Entre os animais há os vertebrados e os invertebrados. Nós somos vertebrados e diz-se assim porque temos vértebras. Os invertebrados são os insectos e as aranhas os caracóis e muitos outros. Estás a seguir o raciocínio?
- Sim, podes continuar.
Em linhas muito gerais, posso dizer que no grupo dos vertebrados estão os peixes, os batráquios, os répteis, as aves, que somos nós, e os mamíferos, cinco grandes grupos ou classes, como é mais correcto dizer. Todas as classes se dividem em ordens, as ordens em famílias, as famílias em géneros e os géneros em espécies. Nós pertencemos à mesma classe mas somos de famílias e géneros diferentes. Eu sou da família Corvidae e do género Pica, tu és da família Psittacidae e do género Amazona e aqui o nosso amigo mocho, é da família Strigidae e do género Athene. Não interessa que decores estes nomes, Só os cito para exemplificar o que expliquei sobre a taxonomia.
- E nomenclatura binomial? O que é isso?
- Nomenclatura binomial é o conjunto de normas que regulam a atribuição de nomes científicos às espécies de animais e plantas. Diz-se binominal porque, como o termo indica, cada espécie é identificada por dois nomes: o nome do género seguido do que designa a espécie. O meu nome completo é Pica pica, o teu é Amazona aestiva e o deste nosso mestre é Athene noctua.

Feita a apresentação dos três principais protagonistas desta ficção, iremos conhecer, em próximos textos, as conversas que travam entre si e com os seus interessados espectadores.

Afixado por José Batista d'Ascenção

terça-feira, 11 de abril de 2017

As famílias, as escolas, a sociedade e a educação de crianças e jovens

Imagem obtida aqui
Longe do país, sentimo-nos mais portugueses, por olharmos para nós e para os outros de forma mais contrastante. Tinha prometido que durante estes dias nada escreveria que envolvesse os alunos e a escola. E resisti à tentação, até agora... Há já muitos anos (antes do fim do milénio passado), aceitei ir com uma turma de alunos de Braga a Coimbra. Aceitei com relutância, porque me havia apercebido de que a motivação (fortíssima) dos alunos estava não nos pontos de interesse da «lusa Atenas», do Buçaco, etc., mas em passar uma noite fora. Cheguei a propôr que algum pai acompanhasse a visita, o que os pais acharam muito bem, mas causou olhares transtornados de vários alunos… Fui, tentei cumprir eficazmente as minhas funções, mas, por volta da uma da manhã, deitei-me e dormi a sono solto até às sete. Quando desci havia um movimento desusado na zona de recepção e alguém do hotel, contrariado, queria falar comigo: timidamente, pretendia dar-me conhecimento de várias reclamações de hóspedes que se queixavam de que não haviam dormido. E alguns dos reclamantes permaneciam por ali, a extravasar fúria, cheios de vontade de me relatar pormenores que não tinha vontade de ouvir. De momento, procurei manter a calma, e disse-lhes que levaria para dar conhecimento na escola qualquer reclamação por escrito que me apresentassem.
Funcionou. O responsável veio tempo depois trazer-me um papel timbrado com dois parágrafos de reclamação, sendo que um deles referia que os professores acompanhantes (eu e uma colega) tínhamos sido cumpridores na nossa função (era preocupação sua que não nos acontecesse nada a nós, professores…).
Verifiquei logo de seguida e durante o dia que quem não devia ter dormido nada foram alguns (bastantes) alunos. À passagem pelo Buçaco, muitos deles dormiam como pedras, esparramados nos bancos, motivo por que não viram o palácio, nem o jardim nem a mata…
Na escola, a direcção respondeu ao hotel, apresentando desculpas, e deu-se conhecimento aos pais. A preocupação destes (dos que se pronunciaram…), mais que a dos meninos, que pouco se importaram com o assunto, era referir o facto incomum de um hotel se dar ao desagrado e à inconveniência de reclamar, tanto mais que não havia estragos materiais. Quando informei que fui eu que sugeri a reclamação, como forma de matar um problema do momento, não pareceram muito entusiastas do procedimento.
Desde então deixei de ir a visitas de estudo que não caibam entre as sete da manhã e o fim da tarde, de modo a serem feitas num só dia. E mesmo essas, poucas, porque há cada vez mais alunos que supõem que podem viajar em cantorias gritadas em calão, como se professores e motoristas não viajassem com eles. E acham isso normal(íssimo), assim como acham bizarro que alguém exija mínimos de decoro.
Vem isto a propósito de notícias do que se terá passado recentemente em Espanha com um milhar de estudantes portugueses. O que quer que tenha acontecido de mau não me espanta. As famílias, primeiro, a sociedade em geral e as escolas em particular, deixaram-se cair numa situação pantanosa de irresponsabilidade comportamental que as crianças absorvem como esponjas. Elas são como nós as (des)educamos. E manifestam-no descontraidamente, parecendo, nalguns casos, desconhecer completamente as normas mais elementares de civismo, correcção e delicadeza. 
Por outro lado, a ganância de alguma unidade hoteleira a querer ficar com o dinheiro das cauções, também não me parece de todo improvável, dada a rapacidade do negócio e a competição subjacente. Opinião não muito favorável estendo a certas agências de viagens que estimulam os jovens a exigir dos pais estes passeios, em que alguns aproveitam para extravasar instintos e impulsos. E depois há os pais, que gostam sempre de reunir (ainda que inconscientemente) todos os elementos que provem que os seus filhos (afinal) não fazem nada de anormal. [Aqui, aproveito para deixar um desabafo: ainda bem que os professores não participam nestas excursões, mesmo acabando indirectamente afectados na sua imagem, assim como as escolas do país: é inevitável, e só impressiona quem não as frequenta diariamente]
Pensava nisto ontem, quando, nas proximidades de uma escola de crianças pequenas em Sion, na Suíça, às oito da manhã, observava a desenvoltura com que duas meninas maiorzinhas, acompanhadas de um adulto, estavam uma num lado da passadeira e a outra no outro, levantando sinais de trânsito para que os automobilistas parassem quando algum dos pequeninos que chegavam, acompanhados pelos pais, iniciava a travessia até à porta da escola. E ali permaneci uns minutos, observando os carros a afrouxar e a parar, como se na sua frente estivesse a autoridade. E gostei de ver.
Ora, no meu país, isto também devia poder ser possível. Mas, ai!, e se fosse um filho meu, tão pequeno, que fosse para a rua regular o trânsito? Não me daria alguma raiva paternalista, ou um protesto furioso pelo perigo que corria? Pergunto, e não sei responder. Eu, que sou e me sinto português retinto.

José Batista d’Ascenção

terça-feira, 28 de março de 2017

O TAMANHO DE UM MILHÃO

Por A. M. Galopim de Carvalho

1 000 000

Foram e ainda são muitas as vezes, onde quer que seja convidado a falar de Geologia, que me deparo com a perplexidade dos presentes face à enormidade do tempo geológico, em que os milhões de anos são tratados com a mesma ligeireza com que falamos de anos das nossas vidas ou de séculos na história da humanidade.
Simbolizado, entre os estudiosos das Ciências da Terra, pela sigla Ma, o milhão de anos é convencionalmente aceite como unidade de tempo. Nada menos do que dez mil séculos, onde cabe mil cento e quarenta vezes a História de Portugal, um milhão de anos é uma eternidade no horizonte temporal das nossas vidas, mas uma ínfima migalha no tempo da Terra, actualmente estimado em 4540 Ma.
A maioria das pessoas nunca mentalizou a ideia de milhão e é por isso que nas conversas faladas, envolvendo quantidades nessa ordem de grandeza, tenho a preocupação de lhes dar uma ideia da enormidade desta cifra.
Para, numa balança de precisão, equilibrarmos um grama de peso, temos de lá colocar 62 grãos de arroz. Uma regra de três simples diz-nos imediatamente que cem grãos pesam 1,61 g, que mil grãos pesam à volta de 16,1 g e que um milhão deles perfaz cerca de 16 kg.
Dito de outra maneira, precisaríamos de 16 sacos como os que se vendem no mercado, para guardar 1 000 000 de grãos desse arroz e ainda ficam de fora 100 g deste cereal.
Um outro caminho que nos conduz à referida ideia, é a de darmos uma badalada por segundo no sino de uma qualquer igreja. Então, para completarmos 1 000 000 de badaladas, teríamos de estar permanentemente activos, durante 11 dias, 13 horas, 46 minutos e 40 segundos, sem comer, nem dormir, nem descansar.
Nota: se me enganei nas contas, que alguém faça o favor de as corrigir.

Afixado por José Batista d'Ascenção