quarta-feira, 1 de março de 2023

A escola pública transformada em manicómio

«Chamam-lhes aulas de substituição. Não é designação errada, perante a prática em que o que deviam ser aulas se transformou.

Os alunos não querem abordar nenhum assunto em que o professor substituto possa ser útil. Apenas três se ocupam a trabalhar, em exercícios de matemática. Os restantes procuram distrair-se com os seus telemóveis, algo ruidosos e excitados. Outros jogam em grupo, mas, sobretudo, tagarelam e agitam-se.

O professor (substituto) contempla e faz (estas) anotações. Ninguém o interpela, exceptuando os alunos que pedem para ir lá fora. Que vão e voltam com o mesmo tédio com que saíram. Ou que demoram a voltar.

A escola é isto. Foi nisto que a transformaram. Faliu, a escola pública, por se ter reduzido ao absurdo. E à indignidade.

Felizmente, uma aluna manteve-se todo o tempo a trabalhar. Honrosa excepção. Merecedora de felicitações.»

Então, o professor pediu a atenção dos jovens (de 10º ano) e leu-lhes as curtas notas anteriores, título incluído. Fez-se silêncio gélido na sala. Vários deles pediram desculpa. Alguns acrescentaram: «obrigado».

Donde se prova que não é por causa dos alunos que a escola está em colapso, nos princípios e no funcionamento.

José Batista d’Ascenção

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Os exames nacionais, o ingresso no ensino superior e o descrédito da escola pública

Há três décadas, pela “correcção” de cada prova de exame de 12º ano recebia-se um valor que era atractivo para muitos dos professores chamados à tarefa. Alguns tomavam a iniciativa de, na altura da entrega das provas “corrigidas” da primeira fase, se oferecerem para os mesmos serviços na segunda. Mais tarde, com o avolumar de dificuldades orçamentais, os professores perderam estatuto e remuneração, passando a ser obrigados a uma suposta formação para “correctores” de exames nacionais de uma estrutura com a sigla GAVE. E tal “distinção” acorrentou-os à realização da tarefa, para que passaram a ser “especializados”, tendo que executá-la de forma gratuita.

Consequência da acção dos “especialistas” em pedagogia do ministério da educação, sempre a atafulhar as escolas com a sua bizarra produção burocrática, fundada em crenças a que chamam ciência, as condições da leccionação não melhoraram, em contraste com os resultados formais da aprendizagem documentada nos registos, reforçados pela participação em testes internacionais, assente nalgum ilusionismo. Tanto que até um técnico da OCDE disse há não muitos meses que a educação em Portugal é um “rolls-royce”. Assim mesmo, como se todos nós fôssemos cegos.

Eu (também) fui um dos “correctores” de antanho, como sou dos de agora, e também recebi as formações do GAVE, sem nunca me ter proposto para qualquer das funções. Com o passar do tempo, fui reforçando a convicção do artificialismo e improvisação de todas elas e comecei a não me sentir bem na condição de funcionário involuntário do “funil” de ingresso no ensino superior. Alimentando uma ideia que se esfumava, procurava não perder o sonho de preparar alunos para que eles aprendessem os aspectos fundamentais dos programas. Posteriormente, desejava eu, os alunos haviam de prestar provas em exame (pois claro!) e, no caso dos que quisessem prosseguir estudos, as instituições a que se candidatassem que tratassem de os seleccionar pelo que soubessem, da forma que bem entendessem.

Em verdade, sempre defendi que a cada ciclo de estudos, a começar no final do ensino básico, se devem aplicar provas de exame, bem feitas: respeitadoras da aprendizagem dos alunos e do trabalho dos professores que os prepara(ra)m. E mais digo: nunca encontrei instrumentos mais adequados, nem mais rigorosos, nem mais fiáveis nem mais justos de testar alunos. Não medem tudo, nem têm que medir, medem o que podem, que não é pouco.

Bem sabemos que, no ministério da educação, os tais “especialistas” sabem que a escola pública entrou num caminho de degradação acelerada. E por isso se esforçam por esconder o fracasso, de que são grandemente responsáveis. A tentativa de eliminar os exames é apenas o expediente mais fácil. Embora inútil.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A ideia de educação de David Justino

David Justino, professor catedrático do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; ministro da Educação do XV Governo Constitucional, entre 2002 e 2004.

“Torna-se difícil para mim entender a educação que não assente no conhecimento e na cultura, no esforço e no rigor, na exigência e na disciplina. Não simpatizo com os novos profetas, eles prometem a escola do século XXI, a escola do futuro em que os alunos interagem com as tecnologias, desenvolvem competências e o professor se torna uma espécie de animador de sala de aula.” in: jornal "Publico" de 25 de Janeiro, pg 14, versão impressa.

Não podia estar mais de acordo.

E, apesar de não ter apreciado o governo (liderado por Durão Barroso) de que fez parte, gostava que estas posições tivessem sido percebidas com a mesma ênfase e clareza pelos professores e agentes do ministério da educação, ao tempo em que foi ministro (pelo menos).


José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Dobre de finados ou toque a rebate pela escola pública?

Vai tumultuosa a vida escolar, por oposição à paz podre dos últimos doze anos. O panelão levantou fervura e o testo saltou, com prejuízo para os alunos, perturbação e angústia dos pais e (acréscimo de) sofrimento para os professores. Nada que fosse imprevisível.

No meio da tormenta têm sido salientados problemas relacionados com a progressão na carreira, a precariedade, os concursos, a não contagem do tempo integral de serviço, o drama da “casa às costas”, a mobilidade por doença, todos motivos de razão. A mesma ênfase merece a vida penosa intra-escolas a que estão sujeitos os professores que dão aulas, como seja a inconcebível definição da componente lectiva, que contraria as reduções com a idade que a lei (faz de conta que) estipula efectivamente [de modo que um professor chamado a substituir outro numa aula da componente lectiva deste, vê esse tempo lectivo transmutar-se legalmente num tempo não lectivo para si. Como se não bastasse, o professor substituto pode ser remetido para a condição de guardador de alunos, chegando a indicar-se-lhe o espaço do recreio para deles tomar conta, sejam meninos do básico ou jovens do 12º ano], ou como sejam os conceitos extraordinários de inclusão, de educação especial, de flexibilidade, de supervisão, de sucesso pleno, ou de avaliação (de que é exemplo o fantástico projeto MAIA, como referi aqui), conceitos que implicam procedimentos burocráticos infernais que hão-de traduzir-se em estatísticas (de trazer por casa) que reflictam os “planos de melhoria”, que se exigem as vezes necessárias até chegar aos resultados de “sucesso” convenientes para publicar e comunicar à OCDE.

Por tudo isto, a escola pública faliu. Os políticos e os “teóricos” adstritos ou instalados no edifício formal da educação conseguiram o objectivo de destruir os professores, arruinando-a completamente. Perdem os alunos e perde o país. Mas as perdas não são universais, como bem sabemos.

Por isso, sem quaisquer ilusões, esta quinta, 19, faço greve.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

«Clima de escola», além das lutas visíveis

Digo a mim próprio que, nos corredores da escola, hei-de ser (mais) enfático e afável nos cumprimentos a colegas professores e aos preciosos funcionários e alunos. Ontem falava com uma colega acabada de regressar de período de convalescença, muito animada, confessando-me que trazia uma farmácia ambulante que a havia de ajudar a reunir a energia necessária. Espero que tenha sentido a minha ternura. Mas há outras(os) que seguem de ou para as salas de aula, por entre magotes de alunos, sem que o seu olhar encontre o meu. Nesses casos saem-me frágeis saudações, eventualmente inaudíveis. Culpo-me e prometo que da próxima é que é. Só que na(s) próxima(s) não consigo a satisfação plena das intenções. São mais do que eu gostaria os olhares baços para o indefinido. Ou é dos meus olhos. Quem sabe se o reflexo pouco objectivo do que eu mesmo sinto.

Entre os mais chegados, porque do mesmo grupo de docência (agora chamam-lhe grupos de recrutamento), ainda combinamos uma ou outra refeição conjunta, mas a adesão não é universal e os que participam não transbordam de felicidade.

No bar da sala de professores, que ainda temos, servidos por santas senhoras, pronunciamos frases de circunstância, esforçamo-nos em atitudes de simpatia, mas prestamos pouca atenção ao que os outros dizem, e reciprocamente. Pelo que não há silêncio, que seria pesado, mas há cada vez menos quem oiça alguém com prazer de ouvir.

Entre o pessoal auxiliar, que ganha pouco, como todos os que trabalham nas escolas, há os que têm décadas de serviço e pesam o bom e o menos bom da profissão, sem sinais de júbilo, e há os que são mais jovens e se esforçam por ver mais que cinzento no futuro.

No que respeita aos alunos, que vêem em cada professor um velho em luta com forças e fraquezas, não se perdia nada se a alegria fosse mais notória.

Este clima contrasta com a atitude dos que (ainda) não perderam o humor e dão vivacidade ao quotidiano e aos dias festivos ou de comemoração.

O que fazer? - Tudo para alimentar a esperança, em primeiro lugar em cada um de nós.

Como? - Não me perguntem, digo apenas que sempre haverá dias luminosos e pessoas animadas da alegria de viver.

José Batista d’Ascenção

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

A enorme responsabilidade de fazer manuais escolares

Frequentemente, ao ler matérias que lecciono (no ensino secundário) estremeço (e envergonho-me) com os erros que cometo. Vai longe e está desactualizado (há muito) o que estudei na universidade. Acontece que ser professor de biologia e geologia abarca tal pluralidade de conteúdos, e alguns com tão poucas relações directas, que dificilmente um professor, por mais que leia e estude autonomamente, consegue estar em dia com os conhecimentos mais recentes nas diversas áreas.

Por isso, sempre fui crítico da multiplicação, repetição e predomínio de acções de formação sobre o modo de ensinar em detrimento das de actualização de conhecimentos em domínios em que devia caber às universidades disponibilizá-los, e a que os docentes de cada disciplina deviam ter acesso gratuito ou integralmente subsidiado, em tempo oportuno e compatível.

In: Rui Dias, "Portugal Antes da História", 1º volume "Da Dinâmica Global aos Processos Geológicos"

O mesmo desconforto sinto quando analiso e trabalho com certos manuais escolares adoptados (até com a minha concordância ou mesmo preferência!). E sou crítico tanto em relação às deficiências de conteúdo como no que toca às supostas pedagogias que pressupõem.

Por vezes, vem-me à memória o que ouvia à minha professora de matemática, Amélia Chagas, no que foi o Liceu Nacional de Castelo Branco, em finais da década de 70 do século passado, no que então se chamava ensino complementar (hoje ensino secundário): os manuais do ensino secundário deviam ser feitos pelos professores do ensino superior, podendo os (dos anos finais) do ensino básico ser elaborados por professores do ensino secundário. O argumento radicava na convicção de que os professores de cada nível sabem bem quais são as bases que julgam (mais) necessárias ao início do ciclo de estudos em que trabalham. A esta ideia não faltam obstáculos de concretização, mas não pode apontar-se-lhe falta de lógica.

Outra possibilidade seria o ministério da educação propor a professores de diferentes departamentos universitários ou outros, de méritos reconhecidos, a elaboração de materiais pedagógicos, incluindo livros, textos de apoio e/ou exercícios, relativos às rubricas dos programas das disciplinas de ciências, como em tempos (já em democracia) houve. No mínimo conseguia-se uma base de qualidade isenta de erros grosseiros, facilitadora da aprendizagem e da acção dos professores. Esse trabalho já é generosamente feito, de modo inteiramente grátis, por pessoas como os Professores Galopim de Carvalho e Jorge Paiva. Outros, como o Professor Rui Dias publicam livros essencialmente para professores. Nada se perdia em tornar esse serviço mais definido e sistemático, recompensando devidamenre os seus autores.

José Batista d’Ascenção

domingo, 13 de novembro de 2022

A nossa língua e o ensino

Na aula (sobre expansão dos fundos oceânicos) calculávamos a velocidade de afastamento de dois pontos situados em placas litosféricas diferentes (por exemplo nas ilhas das Flores e da Graciosa, nos Açores), em movimento (geológico) divergente, e de cada um dos pontos em relação à origem da deslocação, a meio da distância entre os dois (na zona de rifte).

Para esquematização dividimos o quadro ao alto, a meio, e proponho que titulássemos:

- à esquerda: se considerarmos a velocidade de afastamento de qualquer dos pontos em relação ao rifte;

- e à direita: se considerarmos a velocidade de afastamento das ilhas uma em relação à outra.

A aluna, no quadro, escreve: «se considerar-mos…»

Nenhum dos alunos dá por nada. A minha cara deve ter sido de poucos amigos, pelo que a menina, hesitante, pergunta:

- Setôr, «considerarmos» existe?, não deve ser «consideramos»?

Repliquei: se eu considerar, se tu considerares, se ele considerar, se nós considerarmos… etc.

E insisto: - Isto diz-lhes alguma coisa?

Mutismo.

Mando então que seja eliminado o hífen.

E logo um rapaz muito vivo, lá ao fundo:

- Mas então, não tem que ter tracinho?

Sai-me, num grito: - Burro!

Nunca na minha vida tinha dito tal coisa a um aluno. Além do mais, a minha expressão era tão dolorosa e revoltada, quando falha de objectividade. E logo o reconheci.

Para minha surpresa, o rapaz sorri abertamente e faz questão de dizer:

- Não há problema nenhum.

Resta acrescentar que nem aquele aluno nem a generalidade dos alunos daquela turma (de 10º ano), incluindo a menina que estava no quadro, têm falta de inteligência. Nem de simpatia nem de boa educação, já agora.

A desgraça vem do estado a que a «escola» chegou, qual seja a de que muitos alunos não percebem o que os professores dizem, nem entendem o (pouco) que lêem.

Curiosamente, ainda há poucas horas ouvi o novel líder do PCP afirmar, no início do seu primeiro discurso, que, «se dúvidas houvessem»… (sic), e referir, pouco depois, que as crianças têm direito a ser felizes e a aprender…

Lá direito têm. Ou deviam ter.

José Batista d’Ascenção